PAP0385 - Trajectórias não reprodutivas em três gerações de portugueses: incidência, circunstâncias, oportunidade
Foram vários os países europeus que chegaram ao século XXI com baixos níveis de fecundidade e alguns viram a sua fecundidade diminuir ainda mais na última década. Foi o caso de Portugal, que passou de um índice sintético de fecundidade de 1,6 em 2000, para 1,3 em 2009.
Se o adiamento estrutural da maternidade e a diminuição das descendências têm explicado em grande medida este cenário, a verdade é que alguns países registam uma incidência crescente de childlessness, ou seja, de mulheres que, voluntária ou involuntariamente, não fazem a transição para a maternidade. Em Portugal, este fenómeno foi sempre pouco expressivo e ligado a situações de celibato ou infertilidade, e o adiamento também não tem sido tão intenso como noutros países, pelo que é a drástica redução do número de filhos que tem contribuído para a nossa baixa fecundidade.
Ora, já se sabe que períodos de recessão económica e de insegurança e pessimismo face ao futuro, como é este que enfrentamos actualmente, têm um impacto negativo na fecundidade, tendendo a promover comportamentos defensivos, como adiar ou contrair um projecto de parentalidade. Nesta perspectiva, é de esperar que as coortes em idade reprodutiva estejam a adiar a transição para a parentalidade, aumentando o risco de childlessness involuntário. Mas também é expectável que, como vem acontecendo noutros países, mais homens e mulheres estejam a optar por estilos de vida que não contemplam ter filhos.
Por conseguinte, a partir dos resultados de um inquérito nacional (2009/2010), vamos desvendar as trajectórias não reprodutivas de três gerações nascidas nos anos 30, 50 e 70. Para tal, vamos dar conta da incidência do fenómeno e das circunstâncias que o determinam em cada geração. Mas visto os homens e as mulheres mais jovens ainda se encontrarem em idade reprodutiva, vamos explorar mais detalhadamente a relação entre o actual adiamento da parentalidade, as intenções reprodutivas, as circunstâncias e oportunidades com que se deparam e a incidência (latente) de childlessness quando chegarem ao fim da trajectória reprodutiva.
Os resultados confirmam a importância de analisar as trajectórias não reprodutivas numa perspectiva geracional, pois trata-se de um fenómeno em mudança. Mas também que é fundamental conhecer melhor o papel dos homens – sistematicamente negligenciado – na fecundidade e nas decisões reprodutivas. Com efeito, este estudo revelou importantes dessincronias de género na esfera da reprodução, que traduzem campos distintos de oportunidades e constrangimentos para homens e mulheres.