PAP0654 - Em louvor da automobilidade: representações do automóvel na televisão
A automobilidade, entendida como o uso de
veículos a motor para transporte, tornou-se a
forma dominante de mobilidade nas sociedades
contemporâneas, correspondendo a uma
característica central e essencial à
modernidade (Dennis e Urry, 2009). Segundo
Urry (2004), este modo de dependência do carro
com base no petróleo traduz-se num sistema
complexo e estável que domina paisagens,
ambientes e infraestruturas, desencorajando
outras formas de mobilidade e prendendo a vida
social ao uso individual do carro, na medida
em que diversas estruturas sociotécnicas
tornam o uso do carro uma necessidade (caso do
planeamento urbano, da falta de transportes
públicos eficientes ou das pressões sociais e
de marketing). Neste regime sociotécnico que
modela rotinas e convenções, o carro emerge
como um dispositivo hipermoderno de
conveniência (Shove, 2003), fornecendo a
indivíduos pressionados pelo tempo maior
controlo sobre as suas deslocações diárias que
outros meios de transporte, não obstante os
fortes impactos negativos em termos ambientais
e de saúde pública (decorrentes da utilização
de combustíveis fósseis), entre outros. Ter um
carro torna-se necessário à autonomia e
expressão da liberdade individual (Dennis e
Urry, 2009), além de poder também oferecer
status ao seu proprietário, permitindo-lhe
colocar-se numa posição que a cultura
dominante valoriza (Urry, 2004).
Nesta comunicação propõe-se uma análise do
modo como são socialmente construídas nas
emissões televisivas as representações do
automóvel, identificando-se os tipos de
enquadramentos discursivos mais salientes, os
atributos que lhes surgem associados e os
modelos de comportamento apresentados.
Considerando que as emissões televisivas
participam no processo de socialização não só
através da transmissão de informação, como
também do reforço da definição de padrões de
normalidade, normas de comportamento e
valores, nesta comunicação analisam-se quer os
conteúdos televisivos noticiosos quer os não-
noticiosos. Os dados empíricos consistem numa
amostra, seleccionada aleatoriamente, de 36
períodos de emissões televisivas em horário
nobre (das 20h. às 23h.) dos quatro canais
nacionais de sinal aberto (RTP1, RTP2, SIC e
TVI) durante uma semana de Maio de 2011. Os
resultados permitem identificar padrões de
representação do automóvel, bem como as
mensagens, explícitas e implícitas, que lhe
estão associadas.