PAP1520 - CARISMA NA ARTE: UMA NOÇÃO TURVA
Esta comunicação parte de interrogações sobre o carisma para propôr uma perspectiva que esclareça melhor os sentidos que esta noção turva pode ter na arte. Prefiro chamar-lhe turva a obscura, termo algo negativo, porque não oblitera propriamente o que procura descrever mas embacia a percepção de várias dimensões e modelos da singularidade artística. Com efeito, falar em carisma tornou-se um lugar comum para definir o indefinível. Ou seja, qualidades idiossincráticas ou inefáveis de alguns artistas e por vezes também transferíveis para obras mais siderantes em museus imaginários, de tradicionais a actuais. Aí, aparecem com uma aura similar à de relíquias e rituais sagrados, um enigma e/ou ou matéria com excepcional potencial de atracção, como a Monalisa, por exemplo, tão carismática como Leonardo, o seu autor. Mas para além deste exemplo óbvio, outros se podem se podem evocar desde as vanguardas do século XX, apesar de igualmente tanto se falar da dessacralização trazida pela arte moderna e pós-moderna. Sejam as “acções” de Joseph Beuys ainda nos anos 60 ou a performances de Marina Abramovic até ao presente, para citar dois nomes reconhecidos muito como carismáticos, seja todo o escol de pares com mais paradigmas desta excepção artística e que passam, naturalmente, também pelo da celebridade. Desde que foi exemplarmente fabricada por Andy Warhol na sua Factory até à apoteose mercantil e mediática das obras de Damien Hirst. Contudo, apesar desta aparente evidência do carisma, podemos perguntar o que realmente significa na arte, até que ponto se pode aplicar assim a casos afinal bem distintos, e com que diferenças relativamente às outras formas religiosas e políticas do carisma. Duas referências incontornáveis que se reportam, respectivamente, à sua matriz original e à declinação mais habitual também na sociologia. Como no conceito weberiano em que o carisma, continuadamente ligado às propriedades magnéticas e persuasivas de certas personalidades, se associa então ao exercício do seu poder na forma de dominação legítima, porque consentida. Ainda que irracional, na definição de Max Weber, por esse envolvimento emocional com a liderança carismática que, no limite, adoração alienada ou halucinada de seitas e massas.Ora, um dos propósitos da comunicação é mesmo também discutir a importação deste conceito ou modelo weberiano para os universos artísticos. O que, aliás, acontece implicitamente quando sociologia da arte usa o termo carisma e ainda num sentido quase indistinto de singularidade: noção vizinha não menos tautológica, associada a indefiníveis e ao poder simbólico. Alternativamente, e com apoio em várias imagens de obras e artistas, procurarei distingui-las e decompôr a noção de carisma artístico em quatro dimensões nem sempre estão todas implicadas em o que chamamos “carismático”. A saber, dimensões pessoais, relativas à singularidade inclusive biográfica dos indivíduos; dimensões autorais que justamente mostram como a contrario da irracionalidade carismática, a arte tem sempre uma racionalidade estética e expressiva que advém da sua tradição intertextual e erudita; e, finalmente, dimensões espirituais que apesar de secundarizadas pela sociologia são um ponto de contacto com a acepção original do carisma. Mais transcendente, religiosa ou do sagrado, e também como manifestação de dádiva, para além de poder. A este propósito trata-se novamente de esclarecer sentidos e variações que podem ser radicais para o espiritual e a dádiva na arte. Assim, e com apoio em várias imagens da arte moderna e contemporânea, procurarei abordar este aspecto, nomedamente num plano: a relação, de comprometida a ambígua e iconoclasta, que muitas obras e artistas têm com a iconografia religiosa e outros ideários espirituais ou pastorais. Um momento, então, para se poder considerar a Bíblia tão carismática como O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) de José Saramago ou os Versículos Satânicos (1988) de Salman Rushdie. Tal como o carisma que se pode encontrar em direcções moderada ou radicalmente opostas: a participação de artistas na arquitectura e decoração de igrejas, Piss Christ (1987) de Andres Serrano e os 112 Cristos com Andy Warhol interpretou A Última Ceia (1495-98) de Leonardo. The Last Supper (Christ 112 Times), realizada em 1986, um ano antes da sua morte, e que é uma das maiores telas do mundo. Só com paralelo na dimensão de outro quadro, igualmente tão carismático: o Paraíso (1588) de Jacopo Tintoretto no Palazzo Ducale em Veneza.