PAP0349 - Demolição em contexto urbano: Apagamento ou reforço da memória?
Convencionalmente pensamos na demolição como
um acto destruidor e menos vezes a encaramos
liminarmente como um processo que pode
permitir o renascimento de um espaço
moribundo. Nesse sentido, a demolição pode ser
uma forma de fazer cidade. Mas pode ser mais
do que isso. Pode ser também um mecanismo que
promove o apagamento de memórias. Tal como
pode despertá-las. Pode anunciar um fim, tanto
quanto pode marcar um princípio. Encarado
desta forma, o acto da demolição pode afigurar-
se, em si, um fascinante e complexo fenómeno,
tão ecléctico quanto ambíguo.
O ensaio a apresentar pretende salientar a
demolição como algo mais do que um mero acto
técnico num qualquer processo de
requalificação urbana. Pretende afirmá-la
enquanto acto cultural e social. O objectivo
principal é salientar a forma como o seu papel
pode ser preponderante no reforço da memória,
na medida em que o apagamento material que ela
provoca em determinadas
construções “adormecidas” nas cidades pode,
por outro lado, revitalizar a sua lembrança,
uma presença imaterial que confere uma “aura”
de nostalgia e saudosismo à memória do
edifício desaparecido.
Pretende-se neste estudo fazer uma abordagem
inicial de índole predominantemente teórica,
debruçando-nos sobre a demolição,
genericamente falando, enquanto acto
dinamizador da memória. Numa segunda fase
materializaremos, de forma breve, os
argumentos defendidos, através da análise à
reacção pública em torno de uma demolição
levada a cabo em 2005, em Santa Comba Dão. “O
Engenho”, edifício que cumpria originalmente a
função atribuída pelo nome, “jazia” no centro
da cidade, inactivo há vários anos,
completamente votado ao abandono. Estando
localizado numa zona privilegiada, do ponto de
vista imobiliário tornou-se naturalmente, alvo
do interesse de investidores. Os rumores da
sua demolição geraram uma onda de oposição na
cidade que, contudo, se verificou não ter
quaisquer repercussões. Não obstante, o
saudosismo e a nostalgia mantiveram-se após a
demolição e prolongam-se até hoje. Um fenómeno
de personificação do património construído,
essencialmente plasmado na imprensa local, em
torno de um edifício de cuja forma original,
bem vistas as coisas, já muito pouco restava.