PAP0309 - O duplo consumo do deus: a inserção da festa da Semana Santa no contexto do mercado turístico na cidade de São João del Rei, Minas Gerais
A Semana Santa se inscreve no ano litúrgico do catolicismo romano, que tem como marcadores os eventos da vida de Jesus Cristo, do seu nascimento à sua morte, culminando em sua ressurreição. Contudo, dizer que essa festa se institui a partir do mito cristão da morte e da ressurreição de Jesus, guarda uma questão seminal que funda a sua prática, ou seja, o próprio sacrifício do deus que padece para salvar a humanidade. O sacrifício de Cristo é, então, a base do culto e dos festejos da Semana Santa.
A abnegação de Cristo pela humanidade [diga-se cristã] faz com que esta se reúna periodicamente, em um tempo distinto daquele imposto pelo mundo do trabalho, para dissipar sua própria força em um gesto de penitência pelo dom do deus [através do jejum, das orações, das vigílias e das procissões].
Por se introduzir no princípio que Georges Bataille (1975) denomina de “economia geral” - porque consagrada ao gasto inútil - a festividade da Semana Santa, acaba por se defrontar com estruturas sociais que “orientam-se no sentido inverso ao da valorização do instante, da imersão do presente absolutizado, da destruição sistemática e do consumo de signos que se recusa a acumular” (Sanchis: 1992, p.30). Tais estruturas levam a cabo as concepções do pensamento econômico utilitário que se baseiam nas necessidades de produção, conservação e consumo racional, que visa o lucro e exclui a despesa improdutiva
A Semana Santa da cidade histórica de São João del Rei, em Minas Gerais, se introduz no interior dessa natureza festiva; porém, a iniciativa da cidade em integrar o chamado “mercado mundial de cidades”, faz com que essa festa religiosa seja exaltada como um traço autêntico dessa sociedade e, consequentemente, utilizada como moeda de troca para o consumo turístico. Nessa conjuntura, a festa da Semana Santa [vivenciada como dádiva entre a divindade e os fiéis] se defronta com estruturas de uma outra qualidade de economia inversa àquela da festa, posto que é pautada pela produção para o lucro e o consumo. É, então, na mútua incidência de ambas as lógicas avessas que surgem os paradoxos dessa ação de mercadorização da festa da Semana Santa como parte do contexto brevemente descrito.
Entretanto, o conflito engendrado não declara a morte da festa. Ao contrário, a festa religiosa sobrevive e não o faz de forma estática, mas transformando-se e reinventando-se porque se encontra em permanente conflito com as leis do mercado.
Essa comunicação pretende, então, pensar sobre os paradoxos existentes quando da convergência entre duas lógicas distintas [a do consumo pelo turismo e a da despesa improdutiva pela festa], quando a festa da Semana Santa é empregada como uma moeda para o consumo turístico na cidade de São João del Rei.