PAP0945 - Legibilidade dos Textos Jurídicos, Argumentação Jurídica e Discurso Jurídico
A produção legislativa tem sido objecto de uma crescente atenção por parte das instâncias oficiais, da comunidade académica e da própria sociedade civil: desenvolvem-se estudos de legística, multiplicam-se programas sobre a qualidade, simplificação e acessibilidade da legislação, e multiplicam-se organizações privadas que desenvolvem actividade nesta área e que operam mesmo como parceiros dos programas institucionais.
A utilização de linguagem clara e acessível na comunicação oficial tem sido significativamente incrementada e conta com maior tradição no universo anglo-saxónico, onde se desenvolveram organizações e campanhas de plain english e plain language.
Em Portugal, no âmbito do Programa Simplegis, uma das medidas implementadas pelo Governo para incrementar o acesso à legislação foi a publicação de resumos explicativos de decretos-leis e decretos regulamentares em linguagem clara, simples e acessível. Uma particularidade desta medida é o facto de, ao ser aplicada aos diplomas legislativos, não se aplicar directamente nos textos legislativos, sendo concretizada através de uma publicação electrónica autónoma no sítio do DRE em anexo à publicação oficial do diploma em causa.
A presente comunicação analisa esta iniciativa, caracterizando-a de um ponto de vista objectivo (e.g., metodologias, entidades envolvidas, sujeitos intervenientes, tipo, áreas e número de diplomas abrangidos, utilizadores). Procura-se, igualmente, identificar as expectativas e motivações da iniciativa, auscultar percepções de vários auditórios relativamente aos resultados apresentados e definir os fundamentos teóricos do movimento da plain language no domínio jurídico.
Pretende-se, também, problematizar criticamente a iniciativa do ponto de vista da teoria do direito e da argumentação jurídica, reflectindo sobre o seu sentido em face das características específicas do processo legislativo e da interpretação e aplicação jurídicas, apontando as suas virtualidades e limitações.
Numa perspectiva mais abrangente, equacionam-se as tentativas de promoção de legibilidade jurídica em articulação com as características próprias do discurso jurídico, dos seus autores e destinatários; e procura-se articular as abordagens críticas que advertem para as resistências na comunidade jurídica aos processos de legibilidade jurídica com as leituras que perspectivam o discurso jurídico no quadro da diferenciação funcional das actividades e esferas sociais.
Sustenta-se, em geral, que, sob pena de uma ilusão de claridade, o desígnio legítimo da legibilidade jurídica - tendo em conta as constelações complexas de produção dos sentidos jurídicos, das especificidades do discurso, fenómeno e universo jurídicos - apenas pode ser realizado parcialmente, por um lado, através de uma contínua educação para o direito e com o direito e, por outro, nos quadros da argumentação jurídica lato sensu.