PAP0138 - Utopias corporais e riscos físicos: a propósito de hiper-disciplinas alimentares e de exercício físico entre jovens
Descrentes na possibilidade de mudar o Mundo, hoje muitos jovens requerem sobretudo espaço de acção para mudar a sua existência, o seu «mundo de vida». No âmbito deste, muitos tentam mudar o corpo de que se sentem proprietários, investindo-o de imaginários e desejos, de projecções e projectos, não raras vezes difíceis de concretizar. Esses corpos utópicos exprimem-se, frequentemente, pelo extremar da experimentação de limites físicos, caracterizando-se à vista desarmada por um excesso de presença no gesto ou na imagem. No constante desafio entre metas apetecidas e atingidas, há certos riscos físicos e sociais que se interpõem a estes corpos.
Regimes corporais como as dietas ou a prática de actividades físicas, apesar de consensualmente representados como actividades promotoras de saúde e bem-estar, podem ver o sentido inicial da sua mobilização desvirtuado. Acontece quando a aplicação desses regimes se «radicaliza» pelo excesso de disciplina, na procura da conformidade aos modelos de perfectibilidade da corporeidade própria da época contemporânea: hiper-disciplinas alimentares e de exercício físico desenvolvidas no sentido da construção e/ou manutenção de um corpo bem definido na sua silhueta – magro no caso feminino, ou muscularmente tonificado no caso masculino. Ocorrendo, esses corpos correm o risco de uma leitura social próxima da patologia clínica, ou mesmo serem socialmente institucionalizados como «doentes».
Certos distúrbios medicamente consagrados como psico-patologias poderão ser entendidos, no olhar sociológico, como efeitos da radicalização de projectos corporais. Referimo-nos, por exemplo, aos comportamentos clinicamente classificados como dismorfias corporais, como são, por exemplo, os casos da anorexia, medicamente classificada como um distúrbios do comportamento alimentar, ou da vigorexia, clinicamente classificada como uma dismorfia muscular. O objectivo desta comunicação será, então, a partir dos conceitos de utopia corporal e de risco, analisar o processo de agenciamento de hiper-disciplinas alimentares socialmente conotadas com comportamentos anorécticos e vigoréctivos, respectivos conteúdos simbólicos e valorativos, bem como as pressões e sanções sociais a que jovens que as agenciam estão sujeitos. Tal será feito a partir de um corpus de entrevistas realizadas a jovens rapazes auto-identificados como «viciados» na prática de musculação, e a jovens raparigas que, em dado momento das suas vidas, presente ou passado, se auto-identificaram como «anoréxicas».