PAP1479 - Insucesso e Abandono Escolar e a Construção Social da Masculinidade
A relação entre o insucesso escolar e identidade de género é claramente relevante, quando dados estatísticos nos diferentes países da Europa confirmam um maior insucesso escolar e elevadas taxas de abandono nos jovens do sexo masculino com menores recursos económicos ou com capital cultural não reconhecido pela escola (Araújo et al, 2010; Charlot, 2009; Nóvoa, 2005; Derouet, 2004).
Influenciados por contextos culturais de uma masculinidade assente em valores de poder e afirmação mas experimentando dificuldades na obtenção de sucesso escolar, muitos jovens, integram uma masculinidade marginalizada (Connell 1995; 1997, 2001) baseada em atitudes de contestação, agressividade e heterossexualidade performativa, que precocemente “os empurra” para formas de trabalho precário, desvalorizadas e mal remuneradas (Entwisle et al, 2005; Kane, 2006).
Na linha dos estudos referidos procura-se reflectir sobre a construção da masculinidade no contexto escolar, recorrendo a sessões de Focus Group, no sentido de entender a heterogeneidade e as singularidades dos jovens com percursos escolares marcados pelo insucesso e em risco de abandonar o sistema de ensino.
Uma análise exploratória do material recolhido permite-nos perceber o desejo de virem a alcançar uma certificação escolar, embora o estudo seja desvalorizado, enquanto actividade necessária ao êxito escolar. Referem que “se quisessem” até tinham boas notas, mas “não têm paciência para os livros”, “nunca estudaram na vida”, indiciando uma adesão, mais ou menos consciencializada, ao binómio masculinidade/actividade física em contraponto com feminilidade/ trabalho mental (Arnot, 2007).
Os valores hegemónicos encontram-se muito presentes, sendo uma referência normativa dos comportamentos adequados à masculinidade, As diferenças de género são percepcionadas e fundamentadas de acordo com concepções essencialistas pois a defesa de características “naturais”, que distinguem rapazes e raparigas, homens e mulheres, aparece como um discurso normativo raramente questionado. A homofobia e a defesa da heteronormatividade desempenham um papel muito forte, servindo não só para a marginalização e punição de todos os que divergem da norma, mas também, como um exemplo para os que tentem desviar-se do comportamento socialmente sancionado.
Ouvem-se outros discursos, minoritários, que remetem para diferentes formas de viver a masculinidade, “masculinidades dissonantes” (Silva & Araújo, 2007), que assumem práticas mais distanciadas dos valores hegemónicos, encontrando contudo dificuldade, na afirmação das suas vozes, relativamente a uma ordem de género (Connell, 2001) muito poderosa no contexto escolar. Como defende Connell (2001: 160): “No hay ningún mistério sobre el porqué algunas escuelas construyen masculinidades: fueron creadas para eso”.