PAP1097 - A escola dos indivíduos: a singularidade e a vulnerabilidade na reconfiguração das políticas educativas
A escola tem vindo a constituir-se como uma
das promessas centrais que as políticas
públicas contemporâneas têm posto em marcha na
prevenção, administração e reparação do risco,
da vulnerabilidade e da exclusão social. As
medidas, dispositivos e programas de educação
compensatória ou prioritária, que têm sido
implementados nas últimas décadas,
especialmente em territórios onde os problemas
sociais são mais agudos, espelham essas
preocupações.
A entrada dos profissionais do social
(assistentes sociais, mediadores, animadores,
educadores sociais…) na escola resulta, em
parte, da crescente visibilidade e
reconhecimento políticos que os problemas
educativos apresentam na arena pública. Mas
estes novos profissionais da escola não deixam
de enfrentar problemas e desafios muito
significativos no trabalho social que procuram
dinamizar: por um lado, o reconhecimento da
singularidade do seu lugar e do seu papel no
interior das escolas (o problema da autonomia
profissional, do trabalho em equipa e do
ajustamento a lógicas organizacionais e
institucionais diversas, etc.); por outro
lado, o trabalho junto dos públicos a que
dirigem a sua intervenção (a dificuldade de
definição das estratégias mais adequadas à
mobilização dos alunos, famílias e comunidade
para a causa escolar, os dilemas quanto às
modalidades mais ajustadas de se envolver e de
se relacionar com os alunos, os dilemas quanto
à melhor forma de diagnosticar, sinalizar,
administrar e resolver os problemas
particulares de cada aluno, etc.).
Esta comunicação pretende mapear as principais
reconfigurações ideológicas nas políticas de
educação prioritária e de luta contra os
handicaps, detetando as diferenças nas várias
gerações de programas implementados a nível
transnacional (Rochex). Privilegia-se depois o
enfoque em dois programas implementados nas
últimas décadas no sistema educativo
português: os territórios educativos de
intervenção prioritária (teip) e os programas
integrados de educação e formação (pief).
Problematiza-se, enfim, a deslocação do debate
político sobre as desigualdades
socioeconómicas para as novas reconfigurações
que estes programas parecem sofrer e que
trazem novas controvérsias académicas e
políticas sobre o que é uma «escola justa»
(Dubet) ou uma «escola decente» (Payet).
O trabalho de terreno que nos últimos dois
anos tenho desenvolvido junto de agrupamentos
de escolas com projetos teip e turmas pief
fornecerão, por sua vez, algumas ilustrações
empíricas quanto à forma como a intervenção
prioritária tem vindo a gerar um processo de
individualização das políticas educativas,
alicerçada numa grandeza do indivíduo e no
envolvimento da escola na categorização,
prevenção e reparação das situações
vulneráveis a partir de uma lógica
singularizada.