PAP0618 - Como se escreve a vida? Regimes de socialização da classe trabalhadora no Portugal contemporâneo
Os modos de construção/representação do self e
do mundo são formados, não apenas na escola,
mas em diversos contextos sociais. No caso da
classe trabalhadora (operários e empregados e
executantes), no Portugal contemporâneo,
sabemos que os percursos escolares foram
geralmente curtos e/ou mal-sucedidos, mas
também que as suas disposições não constituem
a mera reprodução de estruturas familiares,
frequentemente tradicionais, rurais e
agrícolas. Como se formaram?
A comunicação apresenta resultados de uma
pesquisa de pós-doc, discutindo-se o processo
de socialização, à luz de cinquenta e quatro
histórias de vida produzidas por
trabalhadores, no decurso de processos de
reconhecimento, validação e certificação de
competências. Estas narrativas apontam para um
conjunto de momentos, relações e processos
relevantes na formação dos indivíduos,
guardados na memória devido ao seu importante
papel na definição e apresentação do self.
Partimos das conceptualizações de Elias,
Berger & Luckman e Bourdieu, discutindo
estudos recentes sobre a socialização,
produzidos por Wenger e Lave, Dubar, Lahire ou
Hotkinson e Goodson. Com recurso a teorias da
psicologia e neurociências, explora-se o papel
das emoções. Assim, apresenta-se uma noção de
socialização como processo de constituição dos
indivíduos e das sociedades, através das
interações, atividades e práticas sociais,
regulado por emoções, relações de poder e
projetos identitários-biográficos, numa
dialética entre organismos biológicos e
contextos socioculturais.
Seleccionámos uma amostra diversificada em
termos de idade, ocupação, sexo e
escolaridade, a partir dos inscritos em quatro
Centros Novas Oportunidades – situados em
contextos distintos (centro de Lisboa,
Barreiro, Torres Vedras e Entroncamento) –
que, após a nossa solicitação, nos enviaram
cópia dos seus trabalhos. Recorremos ao método
biográfico como forma de interpretar as cerca
de 5000 páginas de informação apurada (textos
e imagens).
Nesta comunicação, discutimos o modo como
estes trabalhadores organizam as suas
autobiografias, destacando padrões comuns,
enquanto marcadores culturais do modo como a
vida é elaborada e representada. Focaremos os
seguintes aspectos: (1) o nascimento e os
rasgos de bebé, enquanto mitos fundacionais
do “eu”; (2) a formação infantil, entre as
obrigações familiares e as brincadeiras entre
pares; (3) a escola como “experiência
estranha”, de abertura de horizontes e
interiorização de incapacidades; (4) o
trabalho, a religião, o serviço militar e o
desporto como principais comunidades
iniciáticas; (5) o casamento, a parentalidade
e a construção/aquisição da casa
como “fixadores” de identidades e
competências; (6) o desdobramento da vida
adulta em três cenários: o trabalho, a
família/casa e os hobbies/paixões pessoais.
Será equacionado como estas dimensões evoluem
no tempo, comparando três coortes: n. 1945-
1959; 1960-1974 e 1975-1990.