PAP0868 - Componente emocional da arte doméstica na saúde
Numa perspectiva sócio-histórica, coube a Norberto Elias o pioneirismo do estudo da lenta socialização (civilização) das pulsões. Com o decorrer do tempo, o contexto social produz paulatinamente uma distinção e uma distanciação entre o que se sente e a acção que esse sentimento suscita. Tal implica não falar e reagir de imediato, mas dar tempo para reflectir antes de o fazer; substituir a passagem ao acto instantâneo ou impulsivo por uma decisão amadurecida. Perdura, então, uma praxe das pulsões ditas “naturais” ou inatas e um enquadramento das mesmas, dando forma a um conteúdo socialmente partilhado, tendo sido objecto de mudanças que induzem “novas emoções”, ou seja, uma outra forma de dar azo às pulsões “naturais” e uma outra sensibilidade na sua relação com o mundo cultural e social. Tal não significa que as emoções sejam “totalmente socializadas” sob a égide da razão reflexiva e reduzidas a qualquer expressão linguística ou discursiva. Seria ignorar a componente corporal e sensual das emoções. Todavia, ainda que provavelmente haja um enraizamento orgânico das mesmas, tal não significa que sejam a expressão de algo interno expressa no exterior. Verifica-se, outrossim, que há um contexto emergente da manifestação das emoções: interações, inter-relações, inter-dependências são o espaço próprio das emoções, dado possuírem uma tarefa comunicativa incontestável: desencadeiam-se entre pessoas que se comunicam por palavras, gestos, sinais, ou mesmo por silêncios. Mas a actividade emocional não emerge espontaneamente. Constroem-se no seio de uma relação específica com outrem que implica a duração temporal, permitindo que os laços simbólicos se enraízem numa dimensão corporal, numa forma de solidariedade (que não exclui a violência e o conflito), fundadora da composição do Eu e da sua identidade, um modo de mediação que permita estabelecer e provar a sua humanidade para além das actividades exigidas pela sobrevivência. Porém, as emoções assumem impactos diferentes segundo as circunstâncias, os grupos, as profissões… Na comunicação que nos propomos apresentar, versando sobre o trabalho emocional do cuidado doméstico (emotion work) e o trabalho emocional profissional (emotion labour), apoiando-nos num trabalho de campo à base de entrevistas semi-estruturadas, visamos relevar, por um lado, que o trabalho emocional na família, não sendo apanágio exclusivo de um dos seus membros, favorece a prevenção da doença e, por outro, que as profissões de cuidados, utilizam as suas competências e saber-fazer em matéria emocional, graças à socialização nas componentes emocionais da “arte doméstica”.