PAP0880 - Individualização, ruptura transacional e sofrimento
Individualização, ruptura transacional e
sofrimento
Esta comunicação apresenta um estudo que tem
como principal objectivo explorar as relações
entre a individualização e o sofrimento
associado aos distúrbios mentais (vg.
ansiedade e depressão) na sociedade
portuguesa.
O aumento da depressão, nos países
ocidentais, convida a analisar a sua dimensão
social. As explicações biológicas ou
genéticas não se revelam suficientes para
explicar o aumento da doença. Torna-se
importante convocar a perspectiva
sociológica¸ bem como os cruzamentos
possíveis com a psicanálise e a filosofia. Na
perspectiva teórica da actual fabricação
social dos indivíduos surgem váris teorias
(Demailly, 2011). A depressão pode dever-se
ao desenvolvimento do individualismo e do
valor da autonomia, da economia neoliberal e
do culto da performance. É o que afirma Alain
Ehrenberg (2010), segundo o qual, na
sociedade actual, a nevrose é substituída
pela depressão. Ao mesmo tempo, Robert Castel
(1971,1981) com o seu conceito de
desafiliação ou Bertrand Ravon (2005) com
conceitos similares como o de laço social
desfeito, apresentam o aumento da depressão
como resultado da exclusão a que a sociedade
remete alguns dos seus membros. Por último, o
mesmo fenómeno é explicado, em autores como
Charles Melman (2002) e Jean Pierre Lebrun
(2007) para quem a depressão é uma
melancolização ou uma patologia narcísica que
resulta do enfraquecimento das instituições e
da ordem simbólica.
Por outro lado, e no plano empírico, um
estudo recente de natureza quantitativa
revela que quase cerca um quarto dos
portugueses sofreu no último ano de problemas
de ansiedade e depressão (Almeida, 2010).
Pela operacionalização de variáveis como a
classe social, o género, a situação conjugal
e a idade sabe-se que as mulheres, os que
vivem sós, os mais jovens e os menos
instruídos são os grupos mais vulneráveis.
Estes resultados mostram a extensão do
fenómeno em Portugal, a pertinência empírica
do seu estudo, bem como a necessidade de uma
aproximação qualitativa que permita
compreender as correlações descritas.
A depressão surge, então, como objecto de uma
sociologia do sofrimento (Foucart, 2003) que
a perspectiva como fenómeno social e, mais
especificamente, como ruptura transacional,
na fluidez social da ultramodernidade
(Foucart, 2003). Do ponto de vista
metodológico e para atingir os objectivos
enunciados serão realizadas entrevistas em
profundidade na àrea da Grande Lisboa.