PAP1284 - Confiança e Acção Social: Uma Abordagem a Partir da Complexidade
A acção social é precedida por um processo de tomada de decisão que liga passado (o que aconteceu), presente (a decisão) e futuro (a acção social e as suas consequências). Este processo, ao possibilitar o desenrolar da acção na ausência de conhecimento relativo ao que está por acontecer, é irredutível à racionalidade. É neste sentido que propostas como as de Jack Barbalet, que sugere que racionalidade e emoção são críticas para o desenvolvimento do processo de tomada de decisão, se revestem de uma relevância particular, dado que a incerteza e risco associados a um tempo futuro, impossibilitam a circunscrição da decisão à realização de cálculos de custos/benefícios precisos (Barbalet, 1998).
A incerteza e risco associados a um tempo futuro caracterizam os processos de inovação, onde a confiança – uma emoção social entendida como expectativas seguras auto-projectadas, baseada em experiências passadas e presentes, e que decorre no limiar da consciência – possibilita o desenvolvimento da acção.
Barbalet, a este respeito, indica-nos que as emoções são experienciadas subjectivamente e expressas comportamentalmente, apresentando simultaneamente componentes cognitivos (imagens e projecções do Eu no futuro), disposicionais (disposições para agir com base nas referidas imagens) e fisiológicas (com outputs musculares, respiratórios e cardiovasculares).
Neste sentido, o trabalho do grupo de António Damásio revela pistas interessantes. Os autores mostram que outputs fisiológicos específicos, passíveis de serem socialmente construídos através da regulação de vias metabólicas inatas, estão disponíveis aos actores em condições de incerteza, possibilitando uma tomada de decisão inconsciente, quando uma análise racional e consciente se apresenta inoperável (Bechara et al., 1997). Estas alterações fisiológicas, podem ser ou não perceptíveis a observadores externos, dependendo primeiro, do sistema fisiológico que foi accionado, e segundo, da resposta que esse sistema desencadeia. Enquanto que alterações como expressões faciais ou tons de voz, posturas corporais ou gestos, são externamente perceptíveis, outras, como os ritmos cardíacos ou os padrões respiratórios, apesar de enquadrarem o processo de tomada de decisão, não se encontram disponíveis a observadores externos.
Não negligenciando a complexidade da acção social, abordaremos o papel de inputs sociais, culturais e fisiológicos para o processo de tomada de decisão em contextos de inovação. Atravessando fronteiras disciplinares almejamos uma compreensão mais abrangente do papel da confiança na acção social.
Bibliografia
Bechara, Antoine; Damásio, Hanna; Tranel, Daniel; Damásio, António (1997). Deciding Advantageously Before Knowing the Advantageous Strategy. Science, 275: 1293-1295.
Barbalet, Jack (1998). Emoção, Teoria Social e Estrutura Social – Uma Abordagem Macrossocial. Lisboa: Instituto Piaget.