PAP0770 - Corpos em arquivo: lepra, migrações, iteração classificatória e rasura institucional
A medicalização da lepra, em finais do século
XIX, cristalizou a sua classificação como uma
doença residual de atraso civilizacional, isto
é, como uma enfermidade antitética do projecto
moderno cujo traço matricial seria a
exterioridade (Said, 2004). Uma vez expulsa do
Norte Global, em meados do século XX, a lepra
converteu-se num objecto de programas de saúde
pública verticalizados e desenvolvimentistas,
dirigidos a enfermidades incidentes no Sul
Global. Se o programa para a eliminação global
da lepra difunde um discurso soteriológico que
sintetiza a cura bacteriológica com a
emancipação social, o mesmo assenta na
farmacêutização (Biehl, 2007) da saúde pública
e falha em responder à lepra no Norte Global,
num recorte da sua geografia médica (Lock e
Nguyen, 2010) ao Sul Global que denuncia a
epidemiologia enquanto tecnologia de
invisibilidade (Biehl, 2007).
Em Portugal, o declínio epidemiológico da
lepra precedeu a deposição do internamento
compulsivo, em vigor entre 1947 e 1974 (Cruz,
2008). O arquivamento classificatório da lepra
como uma doença residual de atraso
civilizacional, aliado à recriação da
sociedade civil pelo Estado (Santos, 1985),
exauriu de dialéctica a relação entre as
pessoas portadoras e o Estado, invisibilizando
a doença sob uma linha abissal (Santos, 2007).
Durante a década de 1980, o seu semblante
metamorfoseou-se numa doença importada
associada à imigração, contraindo o vazio
institucional de uma doença rara e assomando
como doença reemergente que desestabiliza os
paradigmas da transição epidemiológica e do
nexo território/saúde pública.
Com base numa etnografia multi-situada
(Marcus, 1998) nas escalas transnacional,
nacional e local que justapõe as divergências
entre dois contextos representativos da
expressão polar da lepra e ligados pelos
trânsitos de migração da doença - Portugal e
Brasil -, discutir-se-á a relação entre as
permanências da história e as turbulências
contemporâneas, com ênfase na relação entre
paisagens morais (Pálsson e Hardardóttir,
2002), participação leiga e respostas
institucionais à doença.
A etnografia na escala local, enquanto
metodologia que produz evidências alternativas
(Biehl, 2007), revela a incerteza (Walker et
al, 2003) de uma clínica-previdência, o
estigma institucional (Mak et al, 2009) e a
interseccionalidade entre diferentes barreiras
sociais ao acesso ao tratamento, induzindo uma
análise realizada entre micro e macro escalas
de análise (Latour, 1999) acerca dos
corolários dos abusos do esquecimento
(Ricoeur, 2000) e da repetição do arquivo
(Derrida, 2001) para a política ontológica
(Moll, 2009) da lepra em Portugal, que
desemboca numa ponderação extra-
institucionalista do acesso aos serviços de
saúde, por um lado, e da determinação de
processos colectivos de produção de respostas
institucionais na escala nacional para os
determinantes sociais da iniquidade em saúde
(Whitehead e Dahlgren, 2007), por outro.