PAP0815 - Do discurso público sobre saúde às concepções e investimentos de saúde dos indivíduos: regularidades sociais e atribuições de sentido
Nesta comunicação pretende-se dar conta das concepções, orientações e práticas de saúde dos indivíduos, situando-os duplamente. Primeiro, no plano macro, já que essas concepções e práticas ocorrem num quadro cultural valorizador de determinadas formas de perspectivar a saúde e a doença, e num quadro normativo que define o que é desejável e indesejável em termos de práticas relacionadas com a saúde. Segundo, no plano micro, uma vez que o carácter contigencial das concepções e práticas está patente na sua variação entre os grupos sociais, na sua mutabilidade ao longo do ciclo de vida dos indivíduos, bem como na sua dependência relativamente à condição de saúde dos indivíduos num determinado momento.
Num contexto social e ideológico de forte valorização da saúde e de um correlativo imperativo da prevenção, enquanto estratégia dominante do discurso público, quais as lógicas que presidem às práticas quotidianas dos indivíduos em matéria de saúde e de doença? Que tipo de orientações face à saúde e à doença podem ser identificadas? Que tipo de investimentos de saúde são valorizados e em que medida são confluentes ou contraditórios relativamente à ideologia dominante? Qual a relação entre as orientações gerais e os investimentos concretos dos indivíduos face à saúde?
A procura de respostas a este encadeamento de questões resulta da discussão do material empírico produzido no âmbito de uma pesquisa sociológica sobre consumos terapêuticos desenvolvida no CIES-IUL. Recorreu-se a uma estratégia de investigação pluri-metodológica, combinando a aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra representativa da população residente em Portugal, com a realização de entrevistas semi-directivas a 75 indivíduos, de ambos os sexos, de diferentes grupos etários e com diferentes níveis de qualificação académica, em contextos urbano e rural.
A categorização das orientações e investimentos de saúde dos indivíduos permitiu identificar as tendências dominantes, mas também as lógicas emergentes, as ambivalências e as aparentes contradições. Em traços gerais, prevalecem orientações face à saúde que designámos por “activismo preventivo”, isto é, a crença na possibilidade de prevenir as doenças e a ênfase na responsabilização individual. Em consonância, os investimentos de saúde dos indivíduos assentam sobretudo em lógicas preventivas, essencialmente de carácter “higienista” (associadas ao que correntemente se designa por “estilos de vida saudáveis”) ou “medicalizado” (concretizadas no recurso às tecnologias médicas de controlo da saúde). Parece ainda estar a emergir uma outra lógica preventiva, a “prevenção terapêutica natural”, que passa pelo consumo de produtos terapêuticos/medicamentos naturais com fins de prevenção. Por fim, um número significativo de indivíduos revelou ausência de investimentos de saúde, ou por efectivo alheamento face à saúde, ou por adesão a uma cultura hedonista.