PAP0810 - Modos de relação com as medicinas alternativas: uma abordagem qualitativa de trajectórias terapêuticas
Esta comunicação procura explorar a diversidade de modos de relação com as chamadas “medicinas complementares e alternativas” (correntemente designadas pela sigla CAM, na literatura anglo-saxónica) por parte dos indivíduos que a elas recorrem, bem como o modo como este recurso se inscreve nas suas trajectórias de saúde e de doença.
Trata-se de uma abordagem qualitativa, baseada nas narrativas de indivíduos que, de forma mais esporádica ou mais regular, já recorreram às CAM. Estas narrativas, não sendo centradas exclusivamente nas CAM, mas nas trajectórias e consumos terapêuticos dos indivíduos, têm a vantagem de não isolar artificialmente o recurso às CAM, mas de o situar num quadro mais vasto de consumos, permitindo verificar como a pluralidade de recursos terapêuticos disponíveis se articula e se conjuga, quer nas práticas dos indivíduos, quer nas lógicas e racionalidades que lhes estão subjacentes.
O material empírico é constituído por 30 entrevistas em profundidade realizadas no âmbito de uma pesquisa sociológica sobre consumos terapêuticos, desenvolvida em Portugal, no quadro do CIES-IUL. As entrevistas foram realizadas a indivíduos de ambos os sexos, de diferentes grupos etários e com diferentes níveis de qualificação académica, quer em contexto urbano, quer em contexto rural, em 2009.
Os resultados revelam a existência de uma pluralidade de modos de relação dos indivíduos com as medicinas alternativas ou complementares, a vários níveis: o tipo de terapias a que se recorre; as circunstâncias e trajectórias do recurso; os padrões de recurso; as concepções de risco e eficácia associadas a estas medicinas; a relação com outros consumos terapêuticos; a relação com os terapeutas e os médicos da medicina convencional; as concepções de saúde e de doença e os investimentos de saúde.
A análise culminou na construção de perfis-tipo que caracterizam e sistematizam os modos de relação dos indivíduos com as CAM, baseados essencialmente em duas dimensões: 1) as finalidades associadas ao recurso às CAM (estéticas, de prevenção da doença, de tratamento da doença); 2) e o peso das CAM no quadro dos consumos terapêuticos globais (exclusivismo ou prevalência da CAM, conjugação com a medicina convencional, recurso pontual). Importa referir que, conceptualmente, estes perfis correspondem sobretudo a modos de relação e menos a classificações que se possam atribuir aos utilizadores das CAM. Efectivamente, a análise veio demonstrar que os modos de relação com as CAM não são necessariamente coerentes e constantes ao longo do tempo, mas que vão sendo construídos e reconstruídos em função das várias fases do ciclo de vida e das experiências de doença (directas e indirectas) e, também, em função dos consumos terapêuticos que se vão fazendo.