PAP1556 - O problema da incerteza médica no contexto da Evidence Based Medicine: alguns eixos de problematização teórica
As actuais estratégias de padronização promovidas pelos defensores da Medicina Baseada na Prova (Evidence Based Medicine) advogam a necessidade de conferir maior objectividade à prática clínica, ou seja, preconizam a indispensabilidade de aplicar de forma mais uniforme e padronizada as provas científicas decorrentes da utilização das análises populacionais a vários aspectos da prática médica. O desenvolvimento e difusão de metodologias científicas de base estatística correspondem, neste sentido, a uma clara tentativa de ultrapassar a efectiva variação e contingência da prática médica, dado que essa mesma diversidade é entendida como geradora de problemas não só ao nível da própria qualidade dos cuidados de saúde, mas também, e sobretudo, ao nível do controlo e da racionalização dos custos. Esta concepção, que actualmente corresponde à visão epistémica, política e organizativa dominante, assenta no pressuposto de que a padronização das práticas corresponde a uma forma eficaz de reduzir a incerteza. No entanto, e em contraste com esta assumpção, têm vindo a emergir novas áreas e novas dimensões de incerteza. Isto significa que para além dos tipos de incerteza mais comuns com que os médicos se confrontam, e que estão “classicamente” descritos na literatura sociológica acerca deste assunto – designadamente no trabalho de Renée Fox -, acrescem novos níveis de incerteza, e que resultam do facto de as estratégias de padronização poderem ser, paradoxalmente, geradoras de novos problemas no contexto das práticas profissionais dos médicos, dado que implicam novas formas de pesquisa e recolha de informação que exigem competências técnicas de natureza estatística. Tal é indiciador do facto de que os guidelines e as revisões sistemáticas da literatura nem sempre são acessíveis, suficientes ou adequados para lidar com a complexidade de muitas situações concretas, circunstância que pode justificar o recurso complementar à experiência clínica, e, deste modo, conduzir à reapreciação do julgamento clínico. Assim sendo, o que se pretende com esta comunicação é, justamente, explorar algumas das principais repercussões da EBM no estudo sociológico da incerteza, o que implica revitalizar uma discussão teórica a partir dos contributos mais substantivos no campo da sociologia médica, como os de Renée Fox, Donald Light ou Paul Atkinson. Em particular, pretende-se aferir e compreender que reconfigurações se estabelecem ao nível dos saberes médicos, e que novas formas de articulação se desenvolvem entre a experiência clínica e os critérios de prova de natureza estatística no contexto das práticas médicas.