PAP0544 - Nova pobreza e desafios às políticas sociais
Portugal é um país que só recentemente partilha com o restante da Europa alguns dos debates sobre políticas públicas e modelos sociais. Aliás, só com a adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1985, foi possível iniciar um processo de alguma afirmação de políticas públicas, quer no que respeita ao mercado de trabalho, quer no que respeita ao combate à pobreza e às políticas dirigidas para grupos específicos (abono de família, ação social escolar, pensões reforçadas, etc.).
O contexto socioeconómico da última década, caracterizado entre outras coisas, pela fragilização dos vínculos laborais, fez emergir “novos riscos” (Ulrich Beck), um contrato social reconfigurado (Pierre Rosanvallon) e a emergência de novas “inseguranças sociais” (Robert Castel). Face a essa nova “era da incerteza” (J. K. Galbraith) inauguram-se novas relações com o mercado de trabalho, ora mais precárias, ora mais sazonais, ora mais mal-pagas.
O mercado de trabalho atual tem sofrido rápidas e importantes mudanças estruturais, que têm alterado (estruturalmente) as relações de poder, as dimensões sociais, jurídicas, políticas e económicas. Ao mesmo tempo, este novo contexto refunda a relação entre o (des)emprego e a pobreza, entre o trabalho e o salário e entre o salário e o género, através da criação de um grupo cada vez mais relevante de “working poor”, constituído por cidadãos que vivenciam contextos e modos de vida de pobreza, apesar de manterem uma relação com o mercado de trabalho. Estes serão os temas da presente comunicação.
A transição do milénio trouxe novas dinâmicas económicas. Esta transição inaugura um novo domínio de vulnerabilidades. O trabalho, outrora assumido como caminho para a inserção e para a descolagem da pobreza, já não o consegue mais garantir. A par do desemprego de longa duração, os “novos pobres” (“novos”, não apenas por serem recentes, mas, sobretudo porque obedecem a uma nova dinâmica socioeconômica – o emprego e os baixos salários) edificam uma realidade que rompe com o passado.
Ao mesmo tempo, importantes mudanças legislativas são operadas no sentido da fragilização dos vínculos laborais, da precarização dos contratos de trabalho e da redução de importantes instrumentos de política social, sempre sob a justificação da “competitividade” e dos “constrangimentos financeiros”.
Importará, pois, analisar estas questões, assim como analisar o impacto de medidas concretas, como as políticas de natalidade, as políticas de “mínimos garantidos”, as políticas de incentivo ao mercado de trabalho, entre outras.