PAP1281 - O terceiro sector na governação do bem-estar: uma abordagem estratégica a partir da perspectiva dos sistemas complexos
Esta comunicação propõe uma abordagem da teoria dos sistemas às organizações do terceiro setor (OTS) informada por uma perspectiva relacional sobre o terceiro setor (TS). Parte-se da literatura sobre as OTS enquanto híbridas e a semântica do lugar intermediário do terceiro sector (TS) entre mercado, estado e comunidade. Com as ferramentas analíticas da cibernética da segunda ordem e a teoria dos sistemas complexos (Luhmann, 1995; 2006; Andersen, 2003) argumenta-se que em sociedades funcionalmente diferenciadas as OTS são sistemas de observação acoplados a uma larga variedade de outros sistemas observando a contingência das selecções dos sistemas no seu ambiente. Combinando a teoria dos sistemas e a teoria das organizações de Luhmann (Seidl and Kay, 2005) com a abordagem relacional estratégica (Jessop, 2008), considera-se que a perspectiva da complexidade subjacente a estas abordagens oferece uma compreensão do TS na complexidade da actual governação heterárquica do bem-estar (Jessop, 2003).
Esta perspectiva é aplicada à análise das autodescrições das OTS recolhidas a partir de um estudo de caso etnográfico, teoricamente orientado, sobre participação de OTSs na governação do bem-estar numa localidade Inglesa. A partir de observação, análise documental e entrevistas examina-se o modo como as OTS são constituídas como observadoras pelas observações produzidas e como esta constituição molda a suas decisões e as suas autodescrições e descrições de outros sistemas.
Nesta comunicação apresento, num primeiro momento, o modo como as OTS descrevem as pessoas e como tal informa o (e é informado pelo) modo como desenham os seus programas para a observação das pessoas como cidadãos, utilizadores, membros, mulheres, sem-abrigo, comunidade, etc. O controle sobre como e quem observar é uma questão fundamental na intermediação entre pessoas, OTSs e ambiente. Num segundo momento foco o modo como as OTS se distinguem do seu ambiente e como observam este desenhando as suas estratégias de acordo com estas observações. Descrevo as suas observações sobre os fracassos das organizações e dos programas dos sistemas de bem-estar, da economia de mercado e da comunidade. As OTS não só observam fracassos nos programas e nos códigos dos sistemas mas também, estando acopladas a diferentes sistemas, podem usar as comunicações de um sistema para observar outro sistema como fracassando. Esta pluralidade de posições de observação ajuda a compreender a diversidade do TS e torna as OTS relevantes para a governação em sociedades funcionalmente diferenciadas hipercomplexas.
Esta proposta procura trazer os debates sobre o TS para o quadro teórico da teoria dos sistemas complexos contribuindo para mover este campo de estudo para além da teoria empírica (Taylor, 2010) e para melhorar a compreensão sobre as mudanças actuais no papel do TS no bem-estar.