PAP0709 - Sobre o tratamento técnico e conceptual de objectos residuais
Esta comunicação recai sobre objectos quotidianos em períodos pós uso ou pós consumo. Quase todos os artefactos da vida prática, desde clipes de papel a automóveis, são tratados como meros dejectos ao passarem a fronteira das suas utilidades materiais ou simbólicas. No campo técnico, os macro sistemas de gestão de detritos, tidos como principal destino para os nossos objectos residuais, desde incinerações a deposições em aterros, prestam serviços essenciais na ordenação e renovação do mundo físico. Mas as suas linhas duras de higienização conduzem no presente a dejectificações extremas destes objectos, mesmo quando na ausência iminente de ameaças biológicas ou semelhantes. Em acréscimo, se muitas das suas propostas de substituição, como as reciclagens ou os reusos industriais, desaceleram ou evitam alguns efeitos da entropia material, a longo prazo, elas seguem programas paralelos de desconsideração e erradicação dos objectos em si.
Por sua vez, no campo conceptual tais objectos têm tratamento similar. Os discursos analíticos dominantes, essencialmente ligados ao pensamento social da ciência e técnica, enquadram também esta categoria de objectos enquanto problema a resolver, desde males ambientais de uma sociedade de risco, a distúrbios psicanalíticos de uma sociedade de consumo. Além de museologias tradicionais ou valorizações fetichistas do passado, o pensamento social raras vezes aborda objectos depois das suas trajectórias úteis. Verifica-se um interesse quase exclusivo no artefacto apenas nos instantes da sua invenção, produção, distribuição ou uso, desde os estudos sobre a construção social da tecnologia fascinados com o novo e a inovação, a estruturalismos mais ou menos críticos da cultura material que hoje cruzam a alienação com novos arqueologismos.
Contudo, quer do lado técnico, quer do lado conceptual, existem outros quadros práticos e teóricos que trabalham estes objectos com perspectivas mais favoráveis à sua consideração e aproveitamento. Esta comunicação ao recair sobre objectos residuais da vida quotidiana, focará assim os contrastes e pontos de contacto entre os seus principais programas de tratamento tecnológico e epistemológico e estes outros caminhos alternativos. A discussão irá, no campo técnico, desde os sistemas hierárquicos de gestão de detritos a um debate sobre a respiga para suprimento de necessidades práticas, e no campo conceptual, do apagamento heurístico operado pela narrativa ecológica que ocupa o pensamento socioantropológico no domínio dos resíduos, até às recuperações epistémicas de artefactos obsoletos ou descartados que são hoje efectuadas por novos estudos sociais do lixo e dos dejectos.