PAP1192 - Massa Crítica: um ritual que afirma a necessidade da multidão, da presença do corpo, para dar força a uma causa
O termo Massa Crítica é aplicado no documentário Return of Schorder de Ted White (1992) para explicar a estratégia utilizada pelos ciclistas urbanos chineses nos cruzamentos: esperam até haver número de ciclistas suficiente para juntos, em massa, o atravessarem em segurança. É esta a ideia, estar juntos ao mesmo tempo num mesmo lugar para em massa ganharem força, que sustenta a primeira MC realizada em Los Angeles. A MC é então um conjunto de pessoas que se deslocam de bicicleta à hora de ponta de modo aleatório pelas ruas congestionadas da cidade. Esta massa de ciclistas irá confundir e desafiar a ordem instalada e a sua palavra de ordem We are Traffic será difundida e, do mesmo modo, aproveitada por grupos semelhantes que noutras cidades também reivindicam o lugar da bicicleta na mobilidade urbana e questionam as consequências económicas e sociais do uso massivo do automóvel.
A bicicleta é, no fim do séc. XIX, a nova tecnologia que destabiliza o equilíbrio e renova as emoções associadas à velocidade e, paradoxalmente, serve agora para questionar os valores do progresso associado à capacidade de movimento incrementada pelo automóvel. A MC serve, a este propósito, a mobilização da consciência, tal como Marx a concebeu, levando, já no respectivo grupo do facebook, a discussões que questionam a identidade da cidade, os modos de vida, as diferenças e desigualdades de poder dos peões e ciclistas face aos motoristas, das mulheres face aos homens, da falta de autonomia dos mais jovens, da implicações na saúde e nos gastos associados às doenças ligadas com a sedentarização. É, também, no âmago destas discussões que, paradoxalmente, se dá conta da ambiguidade das categorias uma vez que a maior parte destes ciclistas também são motoristas, que se revelam a quebra de limites e/ou fronteiras entre as ciências aplicadas à interpretação do "tráfego da hora de ponta", ou seja, a todas cabe questionar como é que a cinética se tornou a ética da modernidade.
Depois de quatro participações na MC de Lisboa, com esta comunicação pretendo demonstrar que, não obstante as identidades estarem em constante reciclagem (Bauman, 2007), a força deste ritual, e de acordo com Collins (2004), reside no espectáculo dado pela multidão de 400 ciclistas que em Setembro atravessaram a cidade. São estes corpos e o território da cidade o locus de emoções, o refúgio de segurança, a estrutura sólida de referência do evento. O sucesso de cada MC reside sobretudo no crescente número de participantes e na aparente estabilidade e solidez do seu significado bem como dos símbolos que se lhe associam e que mensalmente são lembrados.