PAP0735 - Illusio perversa: a construção da identidade juvenil em territórios de exceção
Diversamente dos modelos tradicionais de socialização descritos por Bourdieu (2001), como a família e a escola, os jovens e adolescentes do Jangurussu, um dos bairros mais pobres e violentos da cidade de Fortaleza-Ceará, veem a inserção no mercado ilegal do tráfico de entorpecentes como uma forma de dar vazão a sua fonte de energia vital. Esse modelo de entrada na vida adulta, como pudemos observar por meio de entrevistas, parece ser a regra do jogo social naquele território de exceção (CAVALCANTE, 2011), é a sua illusio, na definição do sociólogo francês. Mais do que uma questão meramente econômica, a filiação a esse mundo da violência e da droga apresenta-se como um componente definidor e estruturador de identidades. Talvez resida aí a razão de muitos adolescentes não conseguirem explicar por que decidiram se envolver com esse tipo de atividade e, principalmente, por que não conseguem deixá-la. Sua adesão ocorre quase que sob o efeito de uma força gravitacional irresistível. Reformulando o conceito desenvolvido por Zaluar (2004), poderíamos dizer que o que ocorre no Jangurussu – e, por extensão, a uma série de regiões em que o tráfico se apresenta como a atividade econômica predominante - é uma illusio perversa. Sem levar isso em consideração, acreditamos ser muito difícil compreender as relações sociais nesse território. Um ponto comum nos relatos dos adolescentes ouvidos durante a pesquisa é a ausência ou pouca influência dos pais em suas ações cotidianas, aliada à insignificância da instituição escolar em suas vidas. A presença do Poder Público é quase nula no Jangurussu. Por causa disso, seu poder de socialização torna-se pouco relevante. Paralelamente a isso, as famílias deixam de ter influência sobre esses jovens muito cedo, conforme relatos ouvidos. Em determinado momento de suas trajetórias, eles abandonam essas duas instituições rumo a um mundo novo marcado pela autoafirmação constante e mediado pela violência. As regras do jogo social de uma parcela significativa dos adolescentes do Jangurussu são adquiridas então em meio a grupos secundários de socialização, como os amigos e, mais adiante, criminosos mais experientes que passaram, muitas vezes, pelo mesmo processo de formação identitária. O ingresso no mundo do crime ocorre sempre após um chamado, uma proposta que oferece, de certa maneira, um propósito à vida daquela pessoa em formação. Do ponto de vista da constituição de identidade, que outras illusios existentes no bairro possuem tanta força, a ponto de se opor a essa trajetória? Evidentemente, não se trata aqui de afirmar que todos os adolescentes do bairro têm suas identidades constituídas por meio dessa socialização secundária. O que queremos ressaltar é que, pelas razões já expostas, eles se encontram bastante suscetíveis a isso.