PAP1395 - Consumo solidário como articulador de novos valores e modos de vida na sociedade contemporânea
Na sociedade contemporânea, marcada pelo risco, a performance constitui palavra de ordem e, na condição de valor norteador do consumo, conforma também um modo de vida. Diante da competição pela ascensão social, o consumo de bens materiais e simbólicos está entre os pilares que sustentam o desempenho na vida quotidiana. O risco social aumenta à medida que se naturaliza a idéia de que o consumo seja o principal marcador identitário. Como os sentidos em circulação nos bens são sociais, o consumo tem efetiva influência na constituição dos vínculos sociais e na naturalização das hierarquias. Partindo do pressuposto de que a cultura de consumo consolida um sistema de classificação social, esta comunicação pretende, antes de mais, analisar alguns desdobramentos sócio-econômicos do modelo neoliberal de produção e consumo, que coloca em situação de vulnerabilidade e risco muitas populações. Neste contexto, observa-se a emergência de novos (e antigos) modelos de troca, que buscam romper com a racionalidade ocidental dominante, como forma de reação aos riscos econômicos e sociais que pairam sobre as populações mais vulneráveis. Esta perspectiva alternativa para o consumo se desenvolve no âmbito das experiências da Economia Solidária, fundamentada em princípios de cooperativismo, associativismo e solidariedade. Interessa-nos observar,aqui, que o consumo solidário estimula outra perspectiva de construção das identidades e parâmetros diversos de conformação do modo de vida. Mediados por moedas sociais, os mercados solidários promovem diversidade epistemológica, reunindo de modo equitativo saberes e ritmos diversos. No âmbito da Economia Solidária e Popular, estes clubes de troca estimulam uma produtividade não-capitalista, propondo alternativas ao mercado e reduzindo, assim, a vulnerabilidade destas comunidades. Tendo em vista uma “ecologia das trocas” - termo cunhado a partir dos conceitos de sociologia das emergências e de justiça cognitiva de Boaventura de Sousa Santos -, buscamos aprofundar o estatuto ontológico destes sistemas alternativos de troca. Como experiência prática, analisamos, aqui, o mercado de trocas das crianças, em Portugal, realizado no Jardim Botánico de Coimbra, com a criação da moeda social Jardins. Considerando que há todo um projeto pedagógico por trás da iniciativa, analisamos seu objetivo de desprender as trocas de um modelo capitalista de atribuição de valor. Discutimos também sua proposta de trabalhar não só o desapego das crianças em relação aos seus brinquedos, mas ainda o mito de que só as coisas novas têm valor e servem para brincar. Neste sentido, buscamos refletir de modo mais amplo sobre o valor pedagógico de modelos alternativos de troca (não-direta) entre crianças para a constituição do consumo em novas bases, relativamente às questões da identidade, do modo de vida e dos valores norteadores da convivência social.