PAP0990 - A burguesia tradicional feminina na sociedade de S. Vicente, Cabo-Verde
Debates, conferências, publicações, cartas, histórias de vidas geograficamente recortadas, contam e recontam a diáspora cabo-verdiana pelo mundo. Nasce-se a pensar que se emigra, morre-se a pensar que se regressa. Porém, há quem fique. Fala-se aqui daqueloutros que, posicionados no topo da estrutura social, poderiam em terras estrangeiras, facilmente acumular capital económico e angariar modos de vida a ele ajustados. Foram estes também que dobraram tempos históricos diversos configurados por entre ideologias mais ou menos favoráveis, mais ou menos hostis aos valores sociais e individuais de que cada um é portador.
A pesquisa realizada tem, assim, como objectivos obter, através da narração, vivências que preenchem uma vida que cresceu ao longo de tempos históricos diferentes, por sua vez configurados por dimensões políticas, económicas, sociais e culturais específicas.
Com efeito, as narrativas acompanham o zoom dos olhares: da macro esfera, em que as histórias se contam tendo por referência os acontecimentos que marcam a História de Cabo Verde durante aproximadamente 80 anos, à micro esfera em que o olhar se escapa pela fechadura da porta das “casas de família”. Estas histórias povoam-se também de estórias que a memória perpetua ainda que, representadas agora num tempo longínquo e, por isso mesmo, distorcidas pela subjectividade de quem as produz, mas que nunca tiveram lugar no palco da academia.
Porém, a linha temporal e espacial que organiza estas vidas não é contínua: Portugal é um destino obrigatório no percurso académico destas gentes – Coimbra deixa-se eleger pelo elevado prestígio que atravessa fronteiras; no percurso profissional ainda que em estadias curtas; nas intervenções na área da saúde em situações de maior cuidado; e, na “graciosa” gozada, por direito, na Metrópole. Alguns marcos históricos servem de fio condutor à produção das narrativas sem, contudo, esgotá-los ad initium. O investigador procura também ser surpreendido nesta pesquisa e a este nível a que agora se reporta: o dos acontecimentos e épocas que teceram a história do povo cabo-verdiano.
Quer-se circunscrever as narrativas às mulheres que fazem parte de uma certa elite cabo-verdiana, diríamos até aristocrática, residentes em S. Vicente. Queremos falar, das senhoras, por exemplo, que ainda tomam o chá das cinco, herança da presença inglesa no Barlavento cabo-verdiano. O trabalho é assumidamente exploratório e de cariz etnográfico sem a pretensão de alcançar generalizações de natureza explicativa e sem se deixar sufocar pelas margens apertadas de uma teoria à priori estabelecida. Assim, fluirá na medida exacta dos ritmos das histórias contadas.