PAP0656 - Memórias da Guerra Colonial: Alianças secretas e mapas imaginados
A Guerra Colonial Portuguesa, que teve início há 50 anos atrás, permanece um assunto pouco estudado no que diz respeito às suas implicações sociais e geoestratégicas mais vastas. Esta comunicação pretende trazer à discussão os resultados preliminares de um projecto em curso sobre o Exercício Alcora. Esta aliança secreta, estabelecida entre Portugal, a África do Sul e a Rodésia em 1970, pretendia lutar contra o crescimentos de movimentos independentistas africanos, por forma a preservar uma soberania “branca” na África Austral.
A Guerra Colonial, para além de constituir um momento fundador da realidade sociopolítica do Portugal contemporâneo, foi crucial para as independências das suas antigas colónias em África, tendo tido, igualmente, sérias repercussões nos longos conflitos que lhe sucederam (as guerras civis). Desta forma, uma compreensão detalhada da Guerra Colonial Portuguesa ganha relevância numa aproximação crítica à construção de memórias nacionais em todos os países envolvidos. É fundamental compreender-se as raízes das crises sociais e políticas actuais nos países africanos que conquistaram a independência, bem como reconhecer como segredos de tal importância – como esta aliança “branca” contra os nacionalismos locais na África Austral – alcançaram os dias de hoje imaculados. Explorando linhas de pesquisa sugeridas pelo Exercício Alcora, a Guerra Colonial será vista como parte de um conflito regional – luta contra as independências na África Austral –, e como parte de um conflito global – o que alguns consideram ter sido um subsistema da Guerra Fria na África Austral. Uma das nossas linhas de pesquisa irá, deste modo, centrar-se nas implicações do Exercício Alcora numa nova ordem pós-colonial violenta nos recém-independentes Estados africanos, procurando verter nova luz sobre as raízes das crises sociopolíticas actuais que infelizmente afectam esses países.
Deste modo, centrando-nos na guerra colonial, enquanto conflito de amplas implicações estratégicas, e enquanto duradoura marca na história recente de Portugal, pretendemos pulsar o seu lugar central para a definição da relação entre a sociedade portuguesa e as instituições militares. Mais do que avaliar de que modo as instituições militares têm reagido às transformações sociais e económicas da sociedade mais ampla, importa pensar como, através da guerra colonial e do 25 de Abril, se delineou uma co-implicação fundadora do Portugal contemporânea.