PAP1496 - Práticas Familiares, Rituais e Imaginação Sociológica. Dilemas e desafios na adaptação da ‘entrevista de episódio’ a múltiplos episódios.
No ano em que se assinalam 100 anos sobre a publicação de 'As Formas Elementares da Vida Religiosa' (1912), procuramos nesta comunicação demonstrar a actualidade, operacionalidade e proficuidade das teses durkheimianas em torno do estudo do ritual, a partir da análise empiricamente ilustrada das virtualidades e limitações da opção metodológica por uma forma particular de entrevista – ‘a entrevista de episódio’ – utilizada para uma aproximação à família contemporânea enquanto «categoria realizada» (Bourdieu, 1993).Como ir além do discurso dedutivo e generalista das teses da desinstitucionalização, individualização e risco que desenham um diagnóstico de instabilidade, diluição, fragilidade ou até mesmo desaparecimento da família contemporânea (Brannen e Nielsen, 2005)? Como captar empiricamente esta realidade de um modo que dê, simultaneamente, conta das suas transformações recentes e do significado que assume para os actores, e que permita uma compreensão ampla, plural e actual das inúmeras evidências pelas quais a família se nos apresenta na contemporaneidade? Orientados por esta questão de partida, optámos por estudar as «práticas familiares» (Morgan 1996, 1999), especificamente, os rituais familiares (Bossard e Boll, 1950; Wolin e Bennett, 1984).Argumentamos nesta comunicação que a opção por uma abordagem metodológica qualitativa, intensiva e em profundidade, assente principalmente no recurso a uma entrevista de episódio (Flick, 1997; 2005 [2002]), permitiu captar experiências e significados associados a práticas e representações pluridimensionais dos rituais familiares enquanto processos interactivos e significantes, simultaneamente localizados na cultura, história e biografia pessoal, decisivos para estabelecer e desenvolver o argumento principal da tese a que chegámos, o que iremos ilustrar com exemplos retirados da prática empreendida. Ao partir do pressuposto que as experiências dos indivíduos são armazenadas e recordadas na forma de conhecimento semântico (conceitos e inter-relações entre conceitos) e de narração de episódios (experiências, situações e circunstâncias concretas), a entrevista de episódio permite a recolha de dados (da parte do investigador) sob a forma de uma narrativa contextualizada (pelo entrevistado), o que traz maior densidade ao discurso, uma vez que os significados estão mais próximos das experiências e do contexto que os gera. Julgamos que um maior conhecimento por parte da comunidade científica portuguesa das vantagens da entrevista de episódio em alternativa à entrevista em profundidade ou semi-estruturada poderá contribuir para, do ponto de vista da prática da investigação, aumentar a eficácia, eficiência e rigor dos métodos e técnicas de pesquisa por referência a um enquadramento teórico específico e, ao mesmo tempo, promover o debate interdisciplinar sobre a “prática da razão sociológica”.