PAP0824 - Duas experiências de investigação participada: uma reflexão metodológica
A comunicação tem por base duas experiências recentes de trabalho em que nós, como sociólogo, docente e investigador, fomos convidados a participar. A primeira experiência: monitorização externa do projecto teatral ENTRADO, realizada entre Dezembro de 2009 e Julho de 2011, no âmbito de uma parceria estabelecida entre a PELE e o Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (ISFLUP). O intuito foi o de acompanharmos o processo de criação teatral do projecto ENTRADO no Estabelecimento Prisional do Porto (de Setembro de 2009 a Maio de 2010). Sobre esta história, construída por vários interlocutores, com diferentes papéis atribuídos, o nosso foi o de monitorizar o projecto. Fizemo-lo num duplo papel: como profissional que, a dado momento, faz o acompanhamento das várias impressões deixadas por todos os participantes; como actor social, interessado em processos criativos de cariz cultural e social, que tornam protagonistas actores sociais anónimos. A segunda experiência: projecto pluridisciplinar em torno do Centro Histórico de Guimarães (CHG), realizado de Setembro de 2010 a Maio de 2012, e no âmbito de uma parceria estabelecida entre a SETEPÉS e o ISFLUP. Este projecto procura caracterizar os modos como a população de Guimarães se relaciona com a área classificada Património Cultural da Humanidade (o espaço patrimonial CHG), elaborar um plano de acção que promova na população o envolvimento cívico na vivência desta área classificada e sensibilizá-la para adoptar uma postura activa quanto a actividades de conservação, reabilitação e classificação do CHG. Situamo-nos como sociólogo tanto na fase exploratória de auscultação de actores sociais locais como na fase de caracterização dos perfis sociodemográficos dos moradores e não moradores desta zona da cidade e das suas representações e expectativas face a ela. Num trabalho participado, de feição teórico-metodológica e artística, o sociólogo desenvolveu uma prática de construção conjunta de conhecimento que fundamenta propostas de intervenção no CHG. É nas componentes do saber e do saber-fazer em acção, e no conjunto de discursos, práticas e relações de poder, que se exige ao sociólogo um papel profissional reflexivo e interventivo. Estas duas experiências de investigação, de carácter qualitativo e exploratório, configuram aprendizagens quanto às virtualidades e às dificuldades do processo da investigação, desde o papel do sociólogo na relação com os demais actores envolvidos até às fases e tarefas assentes na conciliação contínua e progressiva entre teoria e empiria. O metadiscurso em torno destas e doutras dimensões constitui sempre um dos parâmetros exigíveis da prática da investigação sociológica.