PAP1553 - Crise econômica, fechamento de unidades industriais e dois casos de resistência e gestão operária na América Latina: Zanon e Flaskô
É uma tendência que as crises mundiais sejam acompanhadas de desaceleração produtiva nos países mais afetados. Isto se traduz em fenômenos de reestruturação produtiva tais como o aumento no índice de deslocamento e fechamento de unidades industriais, com consequente aumento dos índices de desemprego neste setor, o quê contribui com o aumento dos índices de desemprego aberto. Inclusive porque as políticas econômicas governamentais para os períodos de crise têm fracassado em impedir tais consequências, em função dos objetivos fixados em acordos acerca das políticas fiscais, monetárias e cambiais. As quais podem agravar o desempenho produtivo nacional, sobretudo nos casos onde se observam assimetrias econômicas no interior de mercados comuns. Derivado destas tendências, a sequência de crises mundiais da década de 1990 afetou sobremaneira as economias dos países da América Latina e culminou no colapso argentino em 2001. E atualmente, desde 2008, após curto período de crescimento, novamente a crise repõe ameaças sobre o setor industrial na região, mas também na Europa e EUA. Neste contexto, desde há duas décadas, surgiram iniciativas de coletivos operários para resguardar seus postos de trabalho, em particular na América Latina. São casos de empresas, sobretudo no setor manufatureiro, as quais, antes ou depois de sua falência, passam a administração dos trabalhadores cujo objetivo é o de as manterem produtivas. Neste estudo, focamos as consequências das crises na Argentina e no Brasil, entre 2001 e 2010, comparando o impacto sobre sua base industrial, sobre o crescimento do desemprego aberto e do crescimento da taxa de falência de empresas industriais em ambos os países. Dentro do contexto comparativo dos efeitos da crise sobre a economia de ambos os países do MERCOSUL, também realizamos um largo estudo sobre dois casos particulares de empresas que, na eminência de falência e fechamento, foram ocupadas pelos trabalhadores com amplo apoio social e seguem sob administração coletiva dos operários: a cerâmica Zanon na região patagônica da Argentina e a produtora de embalagens industriais Flaskô, na região sudeste do Brasil. Observamos que tais experiências se destacaram entre centenas de outras em cada país a partir da década de 1990, por sua resistência temporal, pela capacidade de a gestão coletiva operária manter e ampliar os postos de trabalho e a remuneração dos trabalhadores. Também por outras modificações internas como: redução da jornada de trabalho, achatamento da hierarquia salarial rumo a remuneração igualitária, coletivização das decisões, rotatividade nos postos de responsabilidade e progressividade de funções, redução drástica de acidentes e da incidência de enfermidades físicas e mentais ligadas ao trabalho, além da ampliação do ativismo social dos trabalhadores envolvidos, seja nas organizações sindicais, movimentos sociais e na agenda política local, regional e nacional.