PAP0688 - Método e ciências humanas: o “argumento do criador” e a “solução” hermenêutica
A retomada da discussão do “argumento do conhecimento criador” – que consagra a máxima “do real só conhecemos aquilo que nós mesmos criamos”, cuja origem é a Scienza Nuova, de Vico –, é de fundamental importância para a devida discussão metodologica no campo das ciências humanas. De fato, é impossivel desconhecer certa marca deixada pelas ciências naturais na modernidade, principalmente a partir do pensamento baconiano (Novum Organum), i.e., a do sujeito construtor moderno ou sujeito epistemológico. Tal retomada, porém, implica o questionamento de tal argumento e a busca concomitante de uma perspectiva mais ampla, que permita ir além desse tipo de tematização, caracteristico da aurora dos tempos modernos. Ademais, trata-se de questão que, de um modo ou de outro, tem atravessado as ciências humanas, desde sua formação como ramos do saber que almejam seu reconhecimento como ciências e, assim, apelam para a trama de sua fundamentação. A pergunta a este respeito, e que orienta nossa proposta, é a seguinte: em que medida o chamado “argumento do conhecimento criador” tem aparecido sucessivas vezes e de diferentes formas transfigurado em outros argumentos aparentemente diversos? Por exemplo: quando da polêmica criada pelas Ciências do Espírito no que se refere ao que Dilthey denominava relação de pertencimento, argumento retomado na contemporaneidade por Gadamer e Ricouer, exatamente para frisar aquela condição de possibilidade do conhecimento característica da experiência histórica (Gadamer) ou, se se quiser, da ciência da História e disciplinas afins? Em que medida testemunhamos nessas tentativas de fundamentação o propósito que acaba por identificar “conhecimento e ação”? Assim, por exemplo, temos que, de acordo com Gadamer, no livro Verdade e Método, o método cientifico moderno, tornado modelo de toda pesquisa do verdadeiro, implica uma restrição da noção de verdade e uma incompreensão da experiência do verdadeiro que se dá no plano extra-científico. Se, ainda segundo o mesmo autor, a verdade, no seu sentido originário, é evento, todo encontro com a verdade será encontro com um fato que, enquanto acontecido, é “passado” e deve ser integrado – (não simplesmente reconstituído, dada a finitude histórica da existência) no mundo atual com aquele que se põe a interpretá-lo.