PAP1172 - Acidentes de trabalho e experiências individuais de risco: da inclusão à exclusão
Actualmente vivemos um período de crise severa que assume formas insidiosas no domínio laboral patente no modo como os pressupostos sobre o trabalho e os seus direitos têm sido avaliados. Estas mudanças para além de terem transformado as noções de tempo e espaço de trabalho, têm contribuído para a erosão dos direitos laborais, a degradação das condições de trabalho e o aumento da população trabalhadora exposta a situações de vulnerabilidade e de exclusão social.
Os acidentes de trabalho aparecem como indicador da deterioração das condições de trabalho e parecem contribuir fortemente para o agudizar de situações de fragilidade e precariedade. Apesar do esforço global para diminuir este flagelo, os acidentes de trabalho continuam a registar valores elevados em todo o mundo, não sendo Portugal excepção.
É objectivo desta comunicação dar conta, por um lado, do modo como a ocorrência de um acidente de trabalho altera a trajectória individual, social e familiar de um indivíduo, passando este de uma condição de trabalhador a uma condição de incapacitado. Por outro lado, atendendo ao facto de as condições de trabalho serem vivenciadas, por cada um, de forma diferente e os seus efeitos dependerem não só do percurso profissional e do contexto de trabalho, mas também da percepção que cada um pode ter em função das suas especificidades físicas, psicológicas e sociais, procura-se discutir os cenários de reparação e reabilitação dos trabalhadores vítimas de acidente de trabalho.
A história dos acidentes contada pelos trabalhadores mostra que estes não têm apenas consequências em termos da capacidade de trabalho perdida, ou de ganho, uma vez que o trabalhador não deixa apenas de receber o seu salário ou de ter a sua capacidade produtiva diminuída. O acidente tem também consequências ao nível da realização pessoal e do reportório emocional face ao valor e sentido do trabalho, na medida em que se assiste com o decorrer de um acidente de trabalho a uma mudança de estatuto, ganhando o trabalho um determinado valor e sentido. Parece existir, após o acidente, uma dignificação pelo trabalho que é destruída pela incapacidade de não poder voltar a trabalhar.
A identificação de diversos percursos após a ocorrência de um acidente de trabalho e o modo como os trabalhadores retornam ou não ao mundo do trabalho possibilita, assim, o reconhecimento do papel do trabalho enquanto promotor da cidadania, da qualidade de vida e de inclusão social.