PAP1076 - Formas de classificação profissional: aproximações e controvérsias. Das actividades delimitadas (profissões) às categorias socioprofissionais difusas (ocupações)
Tendo por base o trabalho empírico realizado pelos autores durante os respectivos mestrados, o artigo proposto visa compreender as lógicas de acção que fundamentam a busca de reconhecimento profissional por parte de dois grupos profissionais distintos: os enfermeiros e os animadores socioculturais. No fundo, o que se procura é perceber como é que diferentes sistemas de representação (político, técnico e cognitivo) convergem ou não no sentido de naturalizar os agrupamentos profissionais.
Numa perspectiva histórica e comparada das duas actividades profissionais, encontramos, embora a níveis diferentes, uma série de controvérsias pela construção de espaços de equivalência a partir dos diversos tipos de bem comum. As controvérsias reportam a questões que dizem respeito ao sentido de justiça invocado pelos actores sociais no que concerne à distribuição de bens materiais ou simbólicos, como os títulos ou os estatutos.
Na busca de um entendimento sobre a pluralidade de formas pelas quais os actores procuram o reconhecimento social da sua profissão, baseámo-nos no modelo teórico saído da obra De la Justification. Les Economies da la Grandeur (Boltanski e Thévenot, 1991). Considerando que estes autores estudaram formas de generalidade alternativas que fizeram aparecer tensões críticas resultantes da confrontação entre diversas maneiras de formar equivalências entre os seres e, portanto, de generalizar.
Procurando destacar diferentes legitimidades que podem proporcionar o acesso aos ofícios (ocupações) e/ ou às profissões, salientamos duas lógicas de argumentação: uma delas assente no mundo industrial que tem na base formas de julgamento baseadas em métodos formalizados expressa em qualificações profissionais, e outra assente numa gramática justificativa do mundo doméstico, cuja grandeza se evidencia por uma legitimidade fundada na experiência conferida pelo posto de trabalho, uma autoridade manifesta numa competência facultada pela prática. Encontramos assim uma distinção clara entre lógicas diferentes, mesmo contraditórias, de justificação. Trata-se de formas de identificação profundamente divergentes, entre imperativos muito dificilmente conciliáveis: enquanto o saber conferido pelos diplomas permite, em alguns casos, uma correspondência entre títulos e postos; em outros, esta codificação não existe porque o mandato profissional, não sendo claro, traduz-se numa indefinição de fronteiras profissionais, não havendo, por isso, uma paridade entre os títulos e os postos ocupados.