PAP0803 - Uma afirmação estratégica da União Europeia na atual configuração geopolítica e geoeconómica da globalização capitalista? - [GT-Pensar a Europa – os paradoxos e desafios de um projecto em mudança].
A Comunidade/União Europeia (UE) tornou-se a partir da segunda metade dos anos 80 do século passado, num importante pólo da globalização económica e financeira, em grande parte, através da sua desindustrialização. E com o fim da Guerra-fria, reforçou ainda mais o seu papel como ator decisivo da liberalização do comércio mundial, através dos acordos de Marraquexe (1994) e da criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) (1995). Simultaneamente, a União vai também assumir-se como ator internacional normativo que, através de condicionalidades, impõe e propaga os valores do “Estado de direito”, dos “direitos do homem”, da “boa governação” e da “economia de mercado”, quer à “Europa alargada”, quer ao resto do mundo.
Com o 11 de Setembro de 2001 e com o consequente projeto “constitucional”, a UE passa a pensar-se como ator estratégico relevante da “securitização” do mundo. Contudo, com a Guerra do Iraque de 2003 e a divisão dos Estados da União, com o falhanço do Tratado dito “constitucional”, com o Tratado dito de Lisboa, de 2007, fugindo à expressão da vontade popular dos cidadãos europeus, a UE entrará numa fase de acentuada decadência política e de crescimento económico anémico, reforçada pela crise do capitalismo financeiro iniciada em 2007 sob a forma de “bolhas” e de “Krachs”, hoje centrada numa “angústia euro-centrada” de défices e de dívidas soberanas colossais que interpela a própria existência da “união monetária”.
O sistema internacional e a governação da globalização liberal-capitalista parecem pois estar em crise, apresentando, desde logo, dimensões de fragmentação clara das suas bases hegemónicas. No entanto, a superpotência americana, apesar das suas importantes perdas de prestígio como líder mundial, num mundo de Estados “emergentes” apresentando-se imunes à crise e procurando configurar novas polaridades, parece ainda ter poder para continuar a ser o pivô do sistema mundial. Daí que a recente “rotação pacífica de Obama” (J. Nye), isto é, que os EUA farão parte do futuro da região da Ásia-Pacífico, seja um sinal seguro de que esta superpotência continuará a ainda ser o pivô da actual reorganização da globalização liberal-capitalista.
Neste contexto, como poderá a atual UE afirmar-se na cena internacional como ator estratégico?