PAP0784 - FALTA DE FAIR PLAY OU EXCESSO DE VIRTUOSE? BREVES REFLEXÕES SOBRE O COMPORTAMENTO DE CRISTIANO RONALDO E NEYMAR NO FUTEBOL ATUAL
A prática do futebol profissional, desde o final do Século XX, passou a caracterizar-se por uma racionalização crescente, em função da organização empresarial dos clubes, da regulamentação profissional dos setores técnicos envolvidos (as equipas hoje dispõem de uma infinidade de profissionais que lhe dão suporte, como fisiologistas, nutricionistas, psicólogos, terapeutas, preparadores físicos, diretores etc.), do desenvolvimento de novos esquemas táticos, do maior rigor na preparação dos atletas, entre outros aspectos – o que fez diluir em parte a essência lúdica da prática esportiva, como apontou o historiador holandês Johan Huizinga em sua célebre obra “Homo Ludens”. No entanto, e sem prejuízo desses aspectos profissionalizantes, o futebol contemporâneo ainda representaria um terreno fértil para a busca do prazer e a efetivação do impulso lúdico, o que, para o autor português António Cabral, realizar-se-ia por meio da imitação (mimese) e da competição (agon), conceitos definidos pelo sociólogo francês Roger Caillois.
O rigor e a complexidade de regras e regulamentos, tão característicos do esporte de alta competição, não estão presentes da mesma forma nos chamados jogos populares; mesmo assim, os atletas profissionais, segundo António Cabral, poderiam continuar a exercer sua prática profissional e dar vazão ao prazer lúdico que está na gênese das atividades esportivas. É como se o jogo representasse um regresso ao paraíso da infância, quando a atividade lúdica tem início; mais do que um regresso ao paraíso, o jogo seria o “paraíso do regresso”.
A partir destas considerações, o presente trabalho procura tecer algumas reflexões sobre o comportamento em campo do futebolista português Cristiano Ronaldo (atleta vinculado ao Real Madrid) e do futebolista brasileiro Neymar (vinculado ao Santos FC). Acusados algumas vezes, por críticos e pelos media, de agirem com falta de ética e de fair play, os dois atletas costumam fazer uso da habilidade técnica como demonstração da virtuose de seus estilos.
Em significativos estudos sociológicos no Brasil sobre o futebol, o drible e a irreverência seriam fatores de valorização estética (como atestam as obras de Gilberto Freyre, Roberto DaMatta e Anatol Rosenlfeld). Essa sublimação foi coroada pelo cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, que em texto publicado em 1970 afirmou que as equipas sul-americanas praticariam um “futebol de poesia”, enquanto as europeias, um “futebol de prosa”. Tais considerações serão colocadas em perspectiva na leitura do jogo praticado por Cristiano Ronaldo e Neymar, em confronto com os aspectos disciplinadores e civilizatórios que seriam promovidos pelo esporte, conforme denunciado pelos sociólogos Norbert Elias e Pierre Bourdieu.