PAP0694 - Futebol, Racismo e Eurocentrismo: Os media portugueses e o mundial na África do Sul
O debate teórico em torno do fenómeno do futebol tem envolvido investigadores de diferentes áreas. A persistência e continuidade dos actos violentos nos jogos de futebol atraiu a atenção inicial dos autores que se centraram, quase exclusivamente, na questão da violência no contexto britânico.
A partir da última década do século XX, os estudos estendem-se a outras realidades empíricas com a publicação dos primeiros trabalhos sobre as culturas de adeptos na Europa do Sul. Num plano secundário, surgiram, simultaneamente, diversas investigações que procuraram abordar a questão do racismo e dos movimentos anti-racistas no contexto do futebol.
Porém, este tipo de análise evidencia alguns limites críticos que impedem o avanço do debate teórico. De um modo geral, as manifestações racistas no contexto do futebol têm sido atribuídas a grupos de extrema-direita que, de uma forma mais ou menos organizada, veriam nos estádios uma arena privilegiada para expressar as suas ideologias. Numa tentativa de combater este tipo de manifestações - comummente atribuídas a ‘marginais’ e ‘extremistas’ - inúmeras iniciativas de ‘combate ao racismo’ têm sido desenvolvidas, em diversos países europeus, abrangendo diferentes actores. No entanto, simultaneamente, de uma forma mais ou menos subtil, as visões eurocêntricas e racistas são constantemente difundidas pelos organismos que tutelam o futebol, pelos media, pelos dirigentes e pelos adeptos.
Esta comunicação tem como objectivo analisar de que forma é que o futebol constitui um poderoso veículo de produção e perpetuação de perspectivas eurocêntricas e racistas, presentes nos discursos e nas práticas dos diversos actores, nomeadamente, nos media.
Partindo da análise das publicações dos media portugueses a propósito do campeonato mundial realizado na África do Sul, pretende-se mostrar que o futebol constitui não só uma metáfora da sociedade, como também produz, reproduz e reifica determinados valores e normas sociais contribuindo assim para uma naturalização das identidades culturais. Tendo sido o primeiro evento do género realizado no continente africano, desde cedo se assistiu a um discurso marcadamente eurocêntrico, que iria, ainda que no plano futebolístico, pôr em confronto a ‘modernidade’ e o ‘tradicional’, a ‘razão’ e a ‘magia’, ganhando assim uma nova visibilidade um discurso altamente enraizado na herança colonial. Este trabalho pretende contribuir para um alargamento do debate teórico nos estudos sobre futebol e sociedade que, de um modo geral, têm abordado a questão do racismo meramente sob uma perspectiva durkheimiana, isto é, como um mero reflexo ou espelho das relações sociais ou sob uma perspectiva historicista, assente na ideia de que o racismo é um fenómeno marginal e residual nas sociedades europeias e, consequentemente, nos estádios de futebol.