PAP1579 - Ética e política
As crescentes dificuldades metodológicas de entrada no campo da saúde, reflectem, por um lado, a colisão entre a proeminência que o acesso institucional a sujeitos de investigação tem nas estratégias de recolha de informação da sociologia, e as tendências de proteccionismo e tutelagem que as instituições no campo da saúde vêm assumindo relativamente ao seu perfil público e aos sujeitos que servem ou integram, respectivamente, e que têm assentado numa codificação genérica de matriz ética (particularmente na segurança de materializações jurídicas dadas) da sua articulação com processualidades de pesquisa. Contudo, precedentemente, tais factores ancoram num contexto em que a sociologia se pode ver como objecto do seu próprio diagnóstico da reflexividade social moderna na apropriação do conhecimento, ao denotar-se os actores sociais a projectarem-se como credores do conhecimento produzido sobre eles, questionando e restringindo o privilégio cognitivo de acesso dito desinteressado a um campo de inquirição, e o preceito de neutralidade axiológica associado a essa forma de produção cognitiva. Nesse sentido, para lá das estratégias institucionais que as ciências sociais possam desenvolver para garantir, repor ou reorganizar o seu acesso ao campo, este contexto mais amplo interpela-nos quanto à própria matriz sociológica de sentido da produção de conhecimento sobre a realidade social de sujeitos interessados – matriz cuja (re)configuração aquelas estratégias reflectirão. Entre a gestão de expectativas discutíveis de instrumentalidade e o compromisso de um esteio de resguardo cognitivo que demande alguma forma de neutralidade social, a sociologia precisará confrontar-se com a problematização da distintividade e da operatividade, sociais e epistémicas, das suas abordagens.