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©Associação Portuguesa de Sociologia – Lisboa, 2012
Associação Portuguesa de Sociologia
PAP0490 - Mulheres Brasileiras em Portugal: o que esconde um sorriso?
A imigração brasileira para Portugal já não pode mais ser considerada um fenômeno novo, seja porque lá se vão quase quatro décadas desde quando se considera seu início (meados dos anos 70), seja porque quantitativamente representam a maior comunidade estrangeira em Portugal, seja porque nos últimos anos vários estudos e investigações tem mapeado de forma exaustiva e cuidadosa a realidade dessa população. Contudo, isso não significa que não sejam possíveis novas problematizações acerca desse tema; principalmente no que diz respeito as questões de gênero, que sistematicamente tem sido ou desconsiderada ou invizibilizada.
O imaginário em relação a mulher brasileira em Portugal é bastante consolidado, as brasileiras gozam de uma identificação própria, não sendo confundidas com outros grupos de imigrantes (Padilla, Fernandes, Gomes 2010) - como acontece por exemplo com romenas, ucranianas e moldavas que, em geral, são classificadas como mulheres imigrantes do leste europeu. Contudo esse imaginário está montado em cima das relações coloniais entre Portugal e Brasil, que confere ao Brasil, e por consequência seu povo, uma posição subalterna. De forma que o lugar reservado as mulheres brasileiras em Portugal é também um lugar de inferioridade. Assim, os discursos – midiáticos, oficiais – acerca das imigrantes brasileiras em geral essencializam, racializam e estigamatizam essas mulheres, uma vez que associam-nas tanto à sexualidade, ao erótico e ao exuberante, como a submissão e docilidade, alegria.
A partir dessas colocações objetiva-se analisar como esse imaginário atuam nos processos de a inserção das mulheres brasileiras na sociedade portuguesa, em especial no mercado de trabalho. Para tanto entrevistou-se e analisou-se o discursos 15 de mulheres brasileiras imigrantes que trabalham em Portugal, bem como algumas matérias veiculadas pela mídia portuguesa.
Observa-se que a ambiguidade desse discurso que ao mesmo tempo em que hiperssexualiza a mulher brasileira, também ressalta características que são socialmente reconhecidas – como a simpatia e a docilidade – age principalmente no sentido de justificar a inserção precária e segregada da mulher brasileira em Portugal, contribuindo para sua marginalização. Cria-se um mecanismos perverso, que por um lado diferenciam as mulheres brasileiras das demais imigrantes, através desses atributos que são positivamente aceitos na sociedade – alegria, sensualidade, beleza – que dificulta que essas mulheres identifiquem que os mecanismos que as aprisionam em uma imagem sexualizada e subalterna.
- FRANÇA, Thais

Thais França.
Doutoranda do Programa de Relações de Trabalho, Desigualdaes Sociais e Sindicalismos do Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra - Portugal. Mestra pelo programa Erasmus Mundos em Work, Organizational and Personnel Psychology - WOP-P pela Universidade de Bolonha - Itália (2008). Gradução em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará - Brasil (2004). Tem experiência na área de Psicologia e Sociologia, com ênfase em Psicologia Social e do Trabalho , atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, feminismos, trabalho, precarização, migrações.
PAP0271 - Racismo contra Mulheres Brasileiras em Portugal? Algumas Reflexões.
Este artigo parte de
pesquisa empírica e
bibliográfica sobre
mulheres brasileiras
imigrantes em
Portugal, através
das quais foi
possível evidenciar
situações de
preconceito e
discriminação que
estas mulheres
sofrem nesse país.
Empreende, também,
um mapeamento
empírico discursivo
de como o
preconceito é
(re)construído,
especialmente nos
media. Busca-se
refletir sobre esse
fenômeno a partir
das discussões
conceituais em torno
do racismo, enquanto
ideologia e prática
social (Machado,
2000). Ao entender a
importância dos
diferentes conceitos
(racismo novo,
cultural,
diferencialista e
desigualitário),
propõe-se uma
abordagem ainda
pouco difundida e
uma especificação
teórica, no intuito
de colaborar com
avanço no
conhecimento sobre
migrações,
etnicidade e
racismo. Trata-se de
introduzir a
perspectiva
epistemológica
descolonial
(Quijano, 2000;
Mignolo, Grosfogel,
2008), descolonial
de gênero (Gonzáles,
1988; Brah,
Anzaldua, et al,
2004; Lugones, 2008)
e o conceito
histórico de racismo
(Fanon, 1983;
Balibar,
Wallerstein, 1988;
Munanga, 2003). Na
perspectiva
proposta, a
modernidade é
entendida como
profundamente
marcada pela
colonização e,
assim, a sociedade
atual não pode ser
compreendida
distante de uma
análise crítica
desse processo
histórico e de suas
consequências
contemporâneas. Uma
das principais
marcas da
colonização consiste
na introdução e na
disseminação da
categoria mental
raça, a qual
permanece
atualmente. Segundo
essa perspectiva, o
racismo colonial
dividiu a população
em raças,
articulando para
isso supostas
características
físicas, culturais e
comportamentais,
para inferiorizar,
essencializar e
estigmatizar grupos
humanos não
europeus. Essa
divisão (mental,
ideológica) em raças
continuaria operando
atualmente, o que se
alteraria são as
práticas de
discriminação e os
grupos alvo conforme
o contexto. Na
Europa, os grupos
mais afetados por
essa racialização
são os imigrantes,
que em sua maioria
são oriundos de
antigas colônias. Na
atual conjuntura de
crise econômica esse
racismo tende a
agravar-se. O
presente trabalho
propõe que essa
perspectiva é
importante para
compreender a
situação das
mulheres brasileiras
imigrantes. A partir
da pesquisa empírica
verificou-se que
essas mulheres são
vistas em Portugal
como portadoras de
características
comuns, são elas:
comportamentais
(sorrir, seduzir,
ser simpática,
disponível para
sexo, ser dócil),
culturais (dançar
sensualmente, falar
errado, alto e
sensual, gostar de
festas) e físicas
(são mestiças –
incluindo aquelas
que no Brasil são
consideradas
brancas, têm o corpo
em curvas, têm
nádegas
sobressalientes).
Através dessas
características, as
imigrantes
brasileiras são
essencializadas,
inferiorizadas e
estigmatizadas em
Portugal. Torna-se
possível perceber
que elas são vistas
a partir da
categoria mental
raça e são vítimas
de práticas sociais
que podem ser
entendidas como
discriminação
racial.
- PADILLA, Beatriz
- GOMES, Mariana Selister.

Mariana Selister Gomes é Doutoranda em Sociologia no Instituto Universitário de Lisboa, acolhida no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-ISCTE-IUL), Bolseira da CAPES/Ministério da Educação do Brasil. Bacharel em História e Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil). Bacharel em Turismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Brasil). Pesquisadora Associada no Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NIEM-UFRGS/Brasil). Seus temas de interesse são: relações de gênero, racismo, imaginários sociais, turismo, imigração, cultura, identidades.
Endereço eletrônico: marianaselister@gmail.com