PAP0691 - A REPRESENTAÇÃO CONTEMPORÂNEA DA CAVERNA DE PLATÃO: NARRATIVAS DA AUSÊNCIA E DO PODER NA ESCRITA SARAMAGUIANA NA VIGÊNCIA DO CAPITALISMO TARDIO
No roman à thèsè “A Caverna”, Saramago cria um
artifício de representação que pondera a
respeito da trajetória de um desacorrentado do
mundo das sombras que desce ao mundo
subterrâneo de um Centro Comercial para
elucidar formas de domínio contemporâneas. O
artigo é parte de uma Pesquisa de Doutorado que
analisa o romance a partir da crítica ao
funcionamento do princípio do mercado que
confina o Estado e deslegitima formas de
sociabilidade já propostas, seja pela fase
liberal seja pela organizada do capitalismo
tardio que, não obstante, desoculta outras
sociabilidades, práticas e culturas que a
modernidade subalternizou, revelando-as, ao
mesmo tempo, como espaços politizados. Saramago
critica a incapacidade do capitalismo de
construir humanamente a conjuntura existencial
do homem, cuja realidade é marcada pela nova
divisão internacional do trabalho, pela
dinâmica vertiginosa das transações bancárias,
pelas novas formas de interrelacionamento das
mídias, que são apenas manifestações visíveis
do sistema econômico. Desse itinerário se
depreende que o esmaecimento do sentido
histórico, a substituição da categoria tempo
enquanto dominante pelo espaço ou a
transmutação das coisas em imagens no processo
de reificação, mais do que características de
uma dominante cultural, constituem traços
estruturais do capitalismo tardio, que se
legitima pela dissolução explosiva da autonomia
da esfera cultural, descrita como uma
prodigiosa expansão da cultura até o ponto em
que tudo na vida social, do valor econômico e
do poder do Estado à estrutura da psique, deve
ser considerado como cultural. A colonização do
real pela cultura surge como uma atualização,
uma amplificação telescópica da indústria
cultural, pratica-se o culturicídio advindo da
incapacidade de se construir um sistema de
relações que avoque a liberdade de culturas
minoritárias e periféricas, restando o
funcionalismo vazio de um sistema de
produção/troca de informações/serviços cujo
objetivo é a acelerada racionalização da
produção. O artigo enfatiza como os discursos
ético-políticos preenchem as condições
comunicativas para um auto-entendimento
hermenêutico de coletividades, porquanto devem
possibilitar uma autocompreensão autêntica e
conduzir para a crítica de um projeto de
identidade, em que é necessário o preenchimento
de certas condições de uma comunicação não-
deformada sistematicamente, que proteja os
participantes contra repressões, sem arrancá-
los de seus genuínos contextos de experiências
e interesses.