PAP0178 - ENTRE AS CORDAS DO CARNAVAL DE SALVADOR: TERRITÓRIO AMBIGUO DE ANGUSTIAS E ALEGRIAS
Atualmente, o Carnaval de Salvador se organiza a partir de seus atores sociais: O folião associado, que pagou para desfilar em um bloco (conjunto formado por um grande carro de som chamado trio elétrico, outro carro de apoio e uma grande corda que marca o espaço para as pessoas que pagaram se divertirem), o folião “pipoca”, brinca a festa de forma descompromissada no restante do espaço, e o cordeiro, aquele que delimita o bloco com o auxílio das cordas. Em torno disso existe a presença do comércio informal através dos vendedores ambulantes e as instituições de poder representadas pelo Estado, Polícia e demais órgãos organizadores da festa. Muitas pessoas fazem uma expectativa em torno do Carnaval não só para se divertir, como é o caso dos vendedores ambulantes e cordeiros que encontram ali um emprego temporário e informal. Dessa maneira, o problema da pesquisa caracteriza-se em saber quais as necessidades e os desejos (a realidade do desemprego e a oportunidade de se incluir na festa) que os cordeiros atribuem a sua prática durante os festejos. Sendo assim, o objetivo central do estudo busca compreender os multiplos significados que os cordeiros atribuiem na prática do trabalho. O estudo analisa, também, as relações sócio-culturais que ocorrem no Carnaval soteropolitano, contribuindo para uma melhor compreensão das relações carnavalescas. Pra tal, o trabalho trata-se de uma pesquisa de aproximação etnográfica e lançou mão de entrevistas semi-estruturadas, observações e pesquisa documental. A produção de dados se deu durante os carnavais de 2009 a 2011, nos quais fomos às ruas buscar, através de gravações, fotos, filmagens e anotações colher material necessário para a elaboração do exame. Diante da observação pudemos identificar os aspectos do meio de sobrevivência ser fator preponderante a justificar a presença dos trabalhadores mal remunerados nas ruas baianas, porém o trabalho, ali, pode ser uma estratégia encontrada para se incluir no folguedo. Nas falas pudemos identificar as nuanças de troca e prazer encontradas durante os dias de exploração na festa. Outro fator, percebido por nós, foi o desejo de se trabalhar nos blocos que têm as grandes marcas musicais, pois ali existe o desejo de auto-afirmação, entre eles há a necessidade de um “status”, uma espécie de disputa em se inserir nas atrações mais famosas e caras. Assim, o Carnaval se revela um espaço onde a iniciativa privada “invade” as ruas e explora o espaço público e ao mesmo tempo manipula “quase que de graça” a força do trabalhador que resiste e desenvolve suas “linhas de fuga” para poder se divertir enquanto é explorado cruelmente.
Palavras-chave: Cordas, Carnaval e Alegria.
Flávio Cardoso dos Santos Júnior - Professor Pesquisador do GEPAC - Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão Artes do Corpo: Memória, Imagem e Imaginário da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) é Graduado em Educação Física e tem como foco de estudo o corpo dentro das manifestações culturais, principalmente as Festas Populares.
Luis Vitor Castro Junior. Professor Dr. em História. Professor adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e coordenador do Grupo Artes do Corpo da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Estudioso das Festas a partir do uso da imagem e oralidade como dispositivos de pesquisa.