PAP0452 - Classes sociais e Cidadania Política: Portugal em perspectiva comparada
O conceito de classe social tem, nas últimas décadas, sido alvo de contestação de diversas correntes, em especial as ligadas às teorias da modernidade (e.g. tardia, reflexiva, pós-modernidade). Contudo, vários autores defendem, numa perspectiva relacional, que o efeito de classe mantém os seus efeitos estruturais em termos de oportunidades profissionais e escolares, mas também na formação de identidades. Assim, o objectivo deste trabalho é o de recuperar as classes sociais para uma leitura da cidadania política em Portugal e na Europa, tendo também em conta uma perspectiva histórica sobre esta mesma relação.
Argumenta-se que a relação entre classes sociais e cidadania política é um elemento central na constituição e entendimento da Modernidade uma vez que permite observar formas diferenciadas de poder e de influência na relação entre cidadãos e instituições no âmbito do Estado-Nação (Mouzelis, 2008; Cabral, 2000). A cidadania política, que aqui assenta na combinação entre participação política e envolvimento cívico, pode ser entendida como um eixo adicional de desigualdades que se intersecta com as classes sociais, sendo esta relação um indicador de distância ao poder, de influência e integração no centro político (Cabral, 2006; Mouzelis, 2002).
A partir dos dados do European Social Survey e colocando Portugal no centro de uma análise transnacional, procura-se perceber quais as suas especificidades face à Europa, identificando, assim, desigualdades de influência conforme a posição social. Além do mapeamento da estrutura de classes e dos padrões cidadania, bem como da sua relação, a análise apoia-se numa tipologia de cidadania que permite identificar formas diferenciadas de acção e relação com o Estado, observando-se formas específicas de distância ao poder. Em termos gerais, há um efeito geral que se repercute pelas classes sociais, ainda que a integração seja diferenciada consoante região da Europa.
Uma comparação do caso português face à Europa mostra uma contraposição entre as detentoras de capital cultural e as restantes classes sociais. Com base em investigação realizada sobre o tema é possível demonstrar que esta relação está imbricada num sistema de dominação que se tem reproduzido ao longo da história, em diversos regimes políticos (Cabral, 2006). Argumenta-se que esta se reflecte nas formas de cidadania política com impactos negativos entre os cidadãos de menores recursos gerando processos de desafeição política e afastamento face ao poder político.
- CARVALHO, Tiago

Nome: Tiago Carvalho
Afiliação institucional: CIES-IUL
Área de formação: Sociologia
Interesses de investigação: Classes sociais, sociologia política
PAP1358 - Dimensão sociológica do processo de decisão de compra de bens de grande envolvimento: automóveis de gama média-alta
No processo de
(re)construção das
identidades, no
contexto de uma
sociedade de consumo
e de consumidores,
os actores sociais
consomem os objectos
enquanto signos
diferenciadores,
através dos quais
mobilizam a
expressão de uma
posição social, de
status ou a
expressão de um
estilo de vida.
Sem perder de vista
a importância de que
se revestem os
lugares de classe
referenciais na
subjectividade dos
actores, damos conta
da existência de uma
classe burguesa,
cujas práticas de
consumo são
passíveis de
revelar,
ostensivamente, os
respectivos lugares
de classe de
pertença.
Surge, deste modo,
uma classe de bens,
cujo consumo
representa a
assumpção de um
conjunto de signos
enquanto símbolos de
sucesso de pertença
classista distintiva
e, em última
análise, de
mobilidade
ascendente
consolidada ou em
processo de
consolidação.
Genericamente, os
bens de grande
envolvimento e
particularmente os
bens de luxo, são
exemplo disso.
É precisamente sobre
este tipo de bens
que, no âmbito de
uma investigação
doutoral em curso,
procuramos dar
resposta à questão:
“Qual o papel
desempenhado pelo
contexto de
socialização dos
indivíduos no
processo de decisão
de compra de bens de
grande
envolvimento?”. Para
dar corpo e
concretizar esta
questão, elegemos a
aquisição de
automóveis de gama
média-alta como
objecto de estudo,
realizada entre os
anos 2005 e 2010.
O objecto de estudo
circunscreveu-se aos
detentores de
Mercedes Classe E,
Audi modelo A6 e BMW
Série 5. Foram
escolhidas estas
marcas/modelos, não
só por essas marcas
serem consideradas
“marcas premium”, de
acordo com as
entrevistas
exploratórias
realizadas nos
diferentes pontos de
venda, mas também,
porque esses modelos
representam
proporções
significativas nas
vendas deste
segmento, variando
de 79% até 88%, no
período em estudo.
O interesse em
estudar o processo
de decisão de compra
de automóveis de
gama média-alta
inscreve-se num
quadro que pretende
averiguar de que
forma essa posse
funciona como fonte
de prestígio para o
proprietário, dentro
de uma lógica de
representações
simbólicas e dos
correspondentes
lugares de classe,
enquanto
manifestação de um
capital, não só
económico mas também
cultural, social e
simbólico, e
enquanto
manifestação de um
conjunto de
disposições
incorporadas.
- SILVA, Rui Almeida e

Nome: Rui Manuel Silva
Afiliação Institucional: Instituto de Sociologia - Departamento de Sociologia, Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Área de Formação: Gestão de Marketing
Interesses de Investigação: Sociologia do Consumo; Classes Sociais; Mobilidade Social
PAP0110 - Origens, destinos e trajectórias de classe: Uma análise da mobilidade social em 2 gerações de portugueses
Diversos estudos têm demonstrado a manutenção de elevados níveis de desigualdade na sociedade portuguesa, com a situação da família de origem a influenciar fortemente a trajectória social dos indivíduos. Tendo como pano de fundo as significativas alterações que enquadram a modernidade portuguesa, o objectivo central desta comunicação é o de apresentar um conjunto de reflexões e de dados novos sobre mobilidade social, a partir da investigação comparativa das trajectórias de classe social de portugueses nascidos em diferentes gerações. Parte-se de uma perspectiva teórica sobre as classes sociais, que as entende como um conjunto de agentes que ocupam posições aproximadas, num sistema pluridimensional de desigualdades, e valoriza-se uma perspectiva sobre o percurso de vida que reconhece a importância central dos constrangimentos estruturais, mas não os assume como um determinismo, salientando a necessidade de os analisar longitudinalmente. Usando dados do projecto "Trajectórias familiares e redes sociais: a trajectória de vida numa perspectiva intergeracional" examinam-se comparativamente trajectórias de classe seguindo o percurso de vida. Utiliza-se uma metodologia inovadora que recorre à análise sequencial procurando estabelecer uma relação entre tempo histórico e mobilidade social. Comparam-se trajectórias de classe dos indivíduos em função das suas origens de classe, visando relacionar mobilidade, geração e género. Conclui-se que a desigual distribuição de recursos, materiais e escolares, continua a ser fulcral para a compreensão das trajectórias de classe e de mobilidade social, embora se observem diferenças geracionais consideráveis nos mecanismos de reprodução das desigualdades. Para além da importância da classe social de origem, a desigual distribuição das qualificações escolares, em particular das mães, revela-se decisiva para compreender a mobilidade social em Portugal.
- RAMOS, Vasco

Vasco Ramos
Doutorando FCT no ICS-UL.
Mestre em Sociologia pelo ISCTE-IUL
Interesses: Classes e Estratificação Social; Família e Género; Populações, Gerações e Ciclos de Vida.
PAP0682 - Trabalho e gênero no setor confeccionista brasileiro de Uberlândia - MG
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa intitulada “A feminização do setor confeccionista em Uberlândia: representações sociais e condições de trabalho”. O presente texto analisa os mecanismos que respondem pela feminização do setor de confecções, um dos mais importantes no cenário da produção industrial de Uberlândia, município brasileiro do interior do Estado de Minas Gerais, que responde pela produção média de 5500 peças/mês - constituído por 90% de mulheres e 10% de homens. Focaliza, ainda, aspectos da divisão sexual do trabalho nas unidades fabris do setor, as condições de trabalho dos(as) operários(as), e as estratégias utilizadas para conciliar as atividades fabris e domésticas. Procura elucidar a imbricação das relações de classe e de gênero que informam as relações estabelecidas no espaço profissional ora analisado, considerando que sua feminização contribui para a precarização do trabalho no setor, hipótese corroborada por denúncias de dumping social praticado por unidades fabris do município, e também pelo fato do setor terceirizar determinadas etapas da produção para reduzir seu custo e ampliar a margem de lucro; de utilizar-se, em larga medida, de atividades façonistas que perfazem 40% da produção local, nas quais também predomina o trabalho de mulheres que, não raro, veem nessas modalidades precarizadas de trabalho, a possibilidade de conciliar as atividades fabris e domésticas. Considera-se que o predomínio da mão-de-obra feminina no setor analisado resulta da trama de relações de gênero que transversam a totalidade social, entendidas estas, como construções histórico-culturais que, no intuito de justificar e legitimar relações desiguais, hierarquizadas, estabelecidas entre sujeitos sociais de sexos diferentes, naturalizam-nas. E o atual sistema de acumulação flexível delas se apropria, utilizando-as como um dos mecanismos potencializadores da produtividade, e geradores de formas específicas de exploração e dominação. O estudo, de natureza qualitativa, ancora-se em vertentes da Sociologia do Trabalho e dos Estudos das relações sociais de sexo/gênero, sobretudo, nas reflexões de Scott, Kergoat e Hirata. O texto resulta de pesquisas bibliográficas, documental, e de campo - por meio da observação dos espaços de trabalho, da aplicação de questionários e realização de entrevistas semi-estruturadas.
- VANNUCHI, Maria Lúcia

Maria Lúcia Vannuchi possui doutorado em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2003), e mestrado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Goiás (1990). É graduada em História e em Ciências Sociais. Atualmente é professora adjunta II do INCIS da Universidade Federal de Uberlândia - UFU. É membro do Colegiado do Curso de Graduação em Ciências Sociais - UFU, e integrante da linha 1 do PPGCS - Cultura, Identidades, Educação e Sociabilidade. Integra o NEGUEM - Núcleo de Estudos de Gênero,Violência e Mulheres - UFU, e o NUPECS - Núcleo de Pesquisa em Ciências Sociais - UFU. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia do Trabalho e das Relações de Gênero. Temas de investigação: gênero e trabalho, identidades de gênero e subjetividades.