PAP0822 - Entre a ‘gaiola de ferro’ e a ‘gaiola de cristal’: percepções dos académicos portugueses sobre o controlo e a regulação política e institucional do trabalho académico
O objectivo geral deste estudo é compreender a forma como os académicos, em Portugal, se posicionam face às
crescentes
tentativas de
institucionalização
de novas tecnologias
de controlo e
regulação das suas
acções e condutas
profissionais.
Seguindo de perto a
conceptualização de
Foucault (2004),
sobre a emergência e
ascensão do
neoliberalismo nas
sociedades
ocidentais, estas
tentativas parecem
traduzir dinâmicas
governamentais
‘construtivistas’
(Gordon, 1991; Rose,
1996) visando a
hegemonização do
modelo de empresa e
de
concorrência/competição
no ensino superior.
Activa e
deliberadamente, as
políticas
governamentais
procuram construir,
artificialmente, um
‘ambiente
institucional’ de
mercado no ensino
superior, visando a
transformação do
habitus e modus
operandi (Bourdieu,
1989, 2006) herdados
do modelo
humboldtiano. Neste
processo, a Nova
Gestão Pública
(NGP), é assumida
como um paradigma
político-instrumental e
uma tecnologia de
controlo e regulação
(Deem, Hillyard e
Reed, 2007) usado
para criar esta
‘nova ordem’ no
sistema e nas IES.
Elege, como alvo
principal, a
conquista dos
académicos para este
´projecto’empreende.
Tal tem significado
a mobilização de
dois modos
contraditórios de
controlo e regulação
do trabalho
académico – as
técnicas de
dominação (Weber,
1999) e as técnicas do ‘self’ (Foucault,
1991; 2004; Costea
et al., 2007).
O suporte empírico
deste estudo é
constituído pelos
dados obtidos com um
questionário
internacional –
‘Mudanças na
Profissão Académica’
– administrado a
académicos
portugueses (N=1320)
vinculados às IES
públicas. A análise
dos dados permite
suportar as
seguintes principais
conclusões. A
maioria dos
académicos
inquiridos: a)
percepciona de forma
tendencialmente
negativa as mudanças
ocorridas na
governação e gestão
das IES; b) mantém
um relativo
auto-controlo da
divisão e das
condições de
desenvolvimento do
trabalho académico
(ensino e
investigação); c)
enfatiza os valores
e práticas
profissionais
‘tradicionais’
(colegialidade e
autonomia
individual) face ao
‘modelo de empresa’
e aos mecanismos de
concorrência/competição
injectados no
sistema. Nesta
lógica, a
intersecção das
técnicas de
dominação e do
‘self’ ainda não são
sentidas como uma
dimensão
estruturante do
controlo e regulação
do comportamento e
do trabalho
profissional dos
académicos.
“Rui Santiago é professor associado com agregação na Universidade de Aveiro e investigador no Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior. Os seus principais interesses de investigação são a governação e a gestão institucional do ensino superior e a profissão académica. Publicou, recentemente, vários artigos nas revistas internacionais Higher Education, Higher Education Quarterly , Higher Education Policy, Minerva e European Journal of Education. É co-editor dos livros Non-University Higher Education in Europe (Springer, 2008) e The Changing Dynamics of Higher Education Middle Management (Springer, 2010). Ao nível nacional é, igualmente, co-editor, entre outros, do livro Grupos Profissionais, Profissionalismo e Sociedade do Conhecimento: tendências, problemas e perspectivas (Edições Afrontamento, 2012).”