PAP0834 - Condição juvenil e trajetórias de desvio
Esta comunicação situa o desvio juvenil no
espectro mais alargado das condições
socioeconómicas das metrópoles ocidentais,
exigindo o cruzamento de perspectivas micro e
macro sociológicas. Parte-se da compreensão das
condições materiais e simbólicas que determinam
os modos de vida nas cidades e a forma como se
repercutem na vida dos jovens, configurando
processos de desinscrição social. A condição
juvenil é associada aos actuais processos de
desregulação laboral: instabilidade,
flexibilidade e precariedade laborais,
multiplicidade de experiências de trabalho
fragmentárias, deriva no espaço de consumo
urbano. Questiona-se a centralidade discursiva
do trabalho nas sociedades pós-modernas, a
partir do paradoxo entre as narrativas que
sustentam o valor do trabalho e as condições de
efectivação da atividade produtiva, apontando-
se para um novo pacto social baseado no acesso
ao consumo. Identificam-se, deste modo,
trajectórias de deriva juvenil, a partir das
quais é possível perspectivar o desenho de
rotas desviantes.
O objectivo desta comunicação prende-se com a
apresentação de um estudo exploratório de
delimitação teórico-conceptual que sustenta um
projecto de investigação empírica sobre os
processos de desinscrição social de populações
desviantes. O desenho metodológico aponta para
uma opção qualitativa assente numa abordagem
indutiva e exploratória das narrativas
biográficas produzidas pelos jovens
institucionalizados em Centro Educativo por
prática de facto qualificado pela lei como
crime.
As expectativas de análise admitem a associação
da condição juvenil a trajetórias de deriva,
marcadas pela situação de desinscrição dos
jovens dos tradicionais espaços de
socialização. Aponta-se, assim, para a
possibilidade de uma leitura de duplo enfoque
das rotas desviantes: (i) o desvio como
expressão do agravamento das trajectórias de
deriva juvenil, representando forma última da
desinscrição do jovem na ordem social
estabelecida; (ii) o desvio como alternativa de
inscrição no plano da normatividade, permitindo
o acesso do jovem às instituições e à
confirmação da existência do Eu pela reacção
social do Outro.
Esta leitura sugere a necessidade de repensar
as narrativas sociais sobre a desviância e o
ideal de reintegração inerente à lógica de
funcionamento das instituições de custódia das
metrópoles actuais.
Palavras-chave: desvio juvenil; trajectórias de
deriva; desinscrição social.
Ana Manso
Professora de Filosofia do Ensino Secundário público. Termina, em 2006, o mestrado em Estudos da Criança, na área de especialização em Intervenção Psicossocial com Crianças, Jovens e Famílias pelo Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho. Tem dedicado o seu trabalho de investigação à problemática do desvio juvenil e aos processos de desinscrição social de populações jovens. Frequenta atualmente o Programa Doutoral em Psicologia na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, sob orientação de Luís Fernandes.