PAP0521 - Problematizar a estrutura e a cultura organizacionais que podem viabilizar um modelo educativo inovador na reabilitação social de jovens em risco de desinserção: estudo de caso
Esta comunicação propõe-se reflectir sobre as possibilidades de aperfeiçoar o funcionamento das organizações que prestam serviços sociais à luz de princípios de organização e de gestão do trabalho que visam a excelência, bem como reflectir sobre as relações, tensas e conflituosas, que se estabelecem entre Estado, mercado e comunidade.
No contexto da reforma do Estado social, damos relevância à geração de propostas que, questionando a mercantilização destes serviços enquanto único factor de eficiência e de rentabilidade, assinalam a necessidade de os aperfeiçoar aos seguintes níveis: aprendizagem contínua e trabalho em equipa para estimular uma visão compartilhada da missão e a apropriação do pensamento complexo; menos burocracia e maior agilidade funcional, implicando maior sintonia e proximidade com as populações, maior capacidade de identificar com rigor e fidedignidade as suas necessidades; recentramento nos cidadãos na base de uma relação de ajuda concreta e duradoura, assente na escuta e no reconhecimento do outro e numa autêntica solidariedade; disponibilidade para a renovação e aperfeiçoamento constante com o objectivo de promover o empowerment; experimentação e validação de soluções que melhor respondam aos novos e velhos problemas de pobreza e exclusão social; elevar à excelência o desempenho organizacional do terceiro sector; elevar a eficácia da organização através de uma gestão investida na integração, valorização e motivação dos seus trabalhadores, dando suporte ao aprimoramento dos seus desempenhos; desenvolver entre os produtores dos serviços uma cultura de serviço que lhes permita tomar consciência do significado dos direitos sociais, culturais e económicos indispensáveis ao exercício das liberdades individuais; implicar os cidadãos na gestão dos serviços públicos para incentivar a sua participação política, o controlo sobre a utilização dos recursos públicos e a sua capacidade para influenciar a prática política dos governantes.
Perante jovens remetidos para circunstâncias que os precipitaram numa longa deriva, sem projecto e sem sentido, envolvendo uma fraca estruturação das suas capacidades mentais e induzindo múltiplas racionalizações do fracasso, propusemo-nos criar uma organização que se desafia a integrar e concretizar os aperfeiçoamentos acima identificados.
PAP0523 - Reconstrução de identidades estigmatizadas: o caso dos jovens consumidores de drogas
Quem recusa uma visão determinista dos comportamentos indivíduos e dos factores que os ocasionam terá que colocar os seguintes problemas: como desencadear a construção de uma identidade positiva, valorizada, normativa e integrada em indivíduos que descrêem profundamente de si próprios? Como dotar os toxicodependentes de instrumentos que os façam significar a realidade, rompendo com as racionalizações que aprenderam a construir no grupo de pares? Como propiciar vivências que induzam a descolagem dos modos de vida estruturados enquanto as sociabilidades estiveram fechadas no grupo de pares?
A resposta a estas questões funda-se no estudo das condições de existência e modos de vida de indivíduos cujos consumos se iniciaram na infância e na adolescência e cujo acompanhamento se diversifica por tipos de instituições e programas de tratamento. A administração de um inquérito por questionário à totalidade dos utilizadores destas instituições na Área Metropolitana do Porto permitirá explorar a hipótese, com fundamento na observação de terreno proporcionada pela actividade profissional que desenvolvemos, de as práticas de consumo de drogas terem significados consideravelmente distintos, consoante se trata de jovens originários das classes médias e altas ou de jovens das classes populares e do sub proletariado.
Algumas análises que incidem sobre o funcionamento global das modernas sociedades mais desenvolvidas têm vindo a assinalar a instalação de uma crise civilizacional que atinge os próprios fundamentos da coesão social. Lipovetsky, Sennett, Castel, e outros produziram reflexões que desvendam a fragilização dos valores universais, o desaparecimento das causas colectivas e dos laços que preservavam os indivíduos dos acidentes da existência e lhes asseguravam o acesso a formas de organização colectiva compatíveis com a afirmação de interesses próprios e da dignidade social.
Há fundamentos para admitir que a crise dos laços sociais tem implicações mais complexas nos jovens originários de famílias privadas de recursos fundamentais, expondo-os a uma vulnerabilidade profunda em todas as dimensões cruciais da inclusão social. Interessa-nos contribuir para criar dispositivos de intervenção orientados para a ampliação dos recursos educacionais, económicos e relacionais dos jovens socialmente mais desmunidos.