PAP0766 - Trajetórias profissionais de mulheres na atual economia flexível e sua relação com dinâmicas familiares
O diálogo entre a mulher, o trabalho e a família, sob o ponto de vista das trajetórias profissionais, é um objecto de estudo que destaca como relevante a sua possibilidade de concretização nestas esferas sociais. Conhecer as trajectórias profissionais e sua relação com as estratégias de uma economia flexível e com as dinâmicas familiares, é o objectivo a que nos propomos. A aplicação de questionários a uma amostra de 450 mulheres (idade média=41, 67 anos ± 10,76 anos) foi fundamental. Numa perspetiva etnográfica delineou-se uma estratégia negociada no próprio terreno com mulheres em diversos contextos da área metropolitana do Porto: trabalhadoras da Administração Pública e Segurança Social; trabalhadoras do privado, nomeadamente hipermercados; desempregadas nos Gabinetes de Inserção Profissional de várias Juntas de Freguesia e Centros de Emprego. Os registos em diário de campo, a fotografia social e as entrevistas semi-estruturadas complementaram os dados recolhidos. Os resultados sugerem que: (i) a ênfase na intermitência das trajectórias profissionais desmonta a invisibilidade associada ao trabalho doméstico e de prestação de cuidados a familiares mostrando que o diálogo estabelecido com a família coloca estas mulheres em desvantagem social e em risco de pobreza; (ii) nas trajectórias profissionais mais instáveis e precárias encontramos mulheres com baixas qualificações, com empregos intermitentes e por tempo determinado, desempenhando profissões em setores pouco valorizados, com vínculos contratuais precários e ocupando postos sem autoridade; (iii) o trabalho por turnos e o trabalho em regime de tempo parcial, enquanto estratégias de flexibilização dos horários de trabalho, não fazem parte da vontade de conciliação do emprego com as responsabilidade familiares, confirmando a submissão destas mulheres à precariedade laboral; (iv) a inserção desigual da mulher na vida activa agrava-se quando é casada e tem filhos, pois ao seu desempenho profissional associar-se-á a “obrigatoriedade” de despender tempo para cuidar da família, acentuando as suas trajectórias de precariedade laboral. Em conclusão, entendemos que este estudo é um alerta actual que poderá contribuir para diluir a sub representação do trabalho feminino, identificando os estereótipos de género que persistem na vida familiar e profissional e mostrando como a imprevisibilidade da família afecta as trajetórias profissionais das mulheres.
Carina Novais, mestre em sociologia pela Faculdade de Letras desenvolve o seu percurso profissional em investigação científica tendo desenvolvido trabalhos diversos resultantes da pesquisa sobre o género e o desporto na área da infância e adolescência e também no âmbito do envelhecimento ativo participando nos projetos "Iniquidades sociais, ambientais e de género na prática de actividade física e desportiva de adolescentes" e atualmente no projecto "Actividade física objectivamente avaliada e obesidade em adolescentes: Estudo dos determinantes pessoais, sociais e ambientais" no Centro de Investigação em Atividade Física e Lazer da Faculdade do Desporto da Universidade do Porto. Tem também contributos enquanto investigadora na organização "Movimento Democrático de Mulheres" participando num projeto "Uma vida de Trabalhos? Trajetórias Profissionais de Mulheres e Participação cívica" onde desenvolveu o seu projeto de mestrado em torno da temática,"género, família e trabalho" e com a publicação "Percursos de Mulheres: Trabalho e Participação Política de Mulheres na área Metropolitana do Porto".