PAP0130 - A escola pública no olhar dos jovens herdeiros
Num momento em que a escola pública enfrenta
múltiplos e complexos desafios e se vê no
centro de inúmeros debates políticos e
investigações científicas, pretendemos
reflectir sobre ela a partir não do
(tradicional) olhar de quem nela vive e de
quem a constrói, mas do olhar distanciado de
quem se sente membro de um sistema de
ensino “à parte”: os alunos das escolas
privadas.
Os dados apresentados resultam de uma
investigação de doutoramento sobre o sucesso
educativo em duas escolas privadas
frequentadas pelas classes dominantes. Apesar
de esta pesquisa não ter como foco analítico
as representações sobre a escola pública,
foram muitos os momentos em que os discursos
dos alunos nos reenviaram para o universo do
ensino estatal. Dissociado da complexidade e
diversidade que o carateriza, ele surge
representado pelos alunos como uma realidade
homogénea e desqualificante que tem
por “contraponto qualificante” o ensino
privado, também falaciosamente associado a um
todo social e escolarmente homogéneo. Tomando
por base apenas umas das técnicas de recolha
de dados acionada nesta investigação – o grupo
de discussão focal -, analisamos, num diálogo
entre o “nós” (escola privada) e o “eles”
(escola pública), os principais eixos em que,
na opinião destes jovens, assenta a dicotomia
entre os dois sistemas de ensino: excelência
académica; valorização do mérito; vivências e
dinâmicas de (in)disciplina; noções
de “identidade de escola”, de “família
educativa”, de “educação em valores” e
de “educação na/para a diversidade sócio-
cultural”. Estes indicadores permitem-nos não
só uma reflexão em torno das lógicas de
distinção – escolar e social – presentes no
discurso dos herdeiros, mas também um
reequacionar crítico da polarização entre
ensino público e privado: o primeiro,
percecionado como espelho da “crise” da
escola; o segundo, como miragem para um ensino
de qualidade.
Escutando os herdeiros de hoje, estaremos (pre)
vendo as políticas educativas de amanhã…
- QUARESMA, Maria Luísa

Identificação: Maria Luísa da Rocha Vasconcelos Quaresma
Filiação:Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto / Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto
Habilitações Literárias: Doutoramento em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Bolsa FCT - SFRH / BD/ 39952/ 2007)
Investigação/docência: Investigadora Integrada do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto/Assistente convidada na Escola Superior de Educação do IPP.
Áreas de interesse: Sociologia da Educação, Sociologia da Juventude, Sociologia das Classes Sociais
Principais Publicações: QUARESMA, Maria Luísa (2010) – Da escola pública ao colégio privado: entre a homogeneidade perdida e a homogeneidade reivindicada. Revista Luso-Brasileira “Sociologia da Educação”, nr.2; QUARESMA, Maria Luísa; LOPES, João Miguel (2011) – Os TEIP pela perspetiva de pais e alunos. Revista de Sociologia, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, vol XX; QUARESMA, Maria Luísa (2010) – Interação, disciplina e indisciplina. In ABRANTES, Pedro, org. – Tendências e controvérsias em Sociologia da Educação. Lisboa: Editora Mundos Sociais; QUARESMA, Maria Luísa (2011) – Democratização escolar: percursos e percalços. In LIMA, Francisca [et al.] – Democratização e educação pública: sendas e veredas. São Luís: EDUFMA --
PAP0065 - Espírito e sociedade – retomar investigações esquecidas com novos métodos
O biologismo tem
funcionado como
argumento de
legitimação de uma
estratégia
epistemológica de
fechamento da teoria
social às
oportunidades e
necessidades de
cooperação
interdisciplinar com
as ciências da vida,
com consequências
limitativas tanto da
clareza como da
capacidade
científicas da
sociologia.
Para lá das
propostas de
interdisciplinaridade dentro
das ciências sociais
e entre estas e as
ciências da cultura
e da comunicação,
este artigo
considera a
possibilidade de
retomar as
perspectivas
positivistas para
organizar um
programa de
investigações sobre
a natureza social
humana, tomando como
equivalente do átomo
na sociologia a
noção de
estados-de-espírito.
Estes poderão ser
observados e
caracterizados
através de medidas a
produzir pelas
modernas tecnologias
de saúde, utilizadas
por métodos
adequados. Desse
modo, velhas noções
clássicas
abandonadas, como os
espíritos
revolucionário,
solidário, do
capitalismo, poderão
ser revisitadas,
clarificadas e
desenvolvidas.
Em tempos de
transformação
social, este debate
teórico e
metodológico espera
ser uma contribuição
para o avanço de
processos de
integração das
ciências sociais e
das ciências da
vida, no novo ciclo
que irá
provavelmente
denunciar as
limitações e mesmo
os malefícios da
hiper-especialização
vigente nas ciências
sociais.
- DORES, António Pedro

Doutorado e agregado em Sociologia no ISCTE em 1996 e 2004 respectivamente, http://iscte.pt/~apad/novosite2007/. Docente responsável pelo ramo “Sociologia da Violência” do mestrado de Sociologia do ISCTE-IUL. Membro da Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento/ACED, http://iscte.pt/~aced/ACED, iniciativa de pessoas reclusas para romperem o cerco que as inibe de exercer os direitos de livre expressão.
Organizador dos livros a) Vozes contra o silêncio – movimentos sociais nas prisões portuguesas, com Alte Pinho, Prisões na Europa – um debate que apenas começa e Ciências de Emergência; b) Autor da trilogia Estados de Espírito e Poder (Espírito Proibir, Espírito de Submissão e Espírito Marginal).
PAP0784 - FALTA DE FAIR PLAY OU EXCESSO DE VIRTUOSE? BREVES REFLEXÕES SOBRE O COMPORTAMENTO DE CRISTIANO RONALDO E NEYMAR NO FUTEBOL ATUAL
A prática do futebol profissional, desde o final do Século XX, passou a caracterizar-se por uma racionalização crescente, em função da organização empresarial dos clubes, da regulamentação profissional dos setores técnicos envolvidos (as equipas hoje dispõem de uma infinidade de profissionais que lhe dão suporte, como fisiologistas, nutricionistas, psicólogos, terapeutas, preparadores físicos, diretores etc.), do desenvolvimento de novos esquemas táticos, do maior rigor na preparação dos atletas, entre outros aspectos – o que fez diluir em parte a essência lúdica da prática esportiva, como apontou o historiador holandês Johan Huizinga em sua célebre obra “Homo Ludens”. No entanto, e sem prejuízo desses aspectos profissionalizantes, o futebol contemporâneo ainda representaria um terreno fértil para a busca do prazer e a efetivação do impulso lúdico, o que, para o autor português António Cabral, realizar-se-ia por meio da imitação (mimese) e da competição (agon), conceitos definidos pelo sociólogo francês Roger Caillois.
O rigor e a complexidade de regras e regulamentos, tão característicos do esporte de alta competição, não estão presentes da mesma forma nos chamados jogos populares; mesmo assim, os atletas profissionais, segundo António Cabral, poderiam continuar a exercer sua prática profissional e dar vazão ao prazer lúdico que está na gênese das atividades esportivas. É como se o jogo representasse um regresso ao paraíso da infância, quando a atividade lúdica tem início; mais do que um regresso ao paraíso, o jogo seria o “paraíso do regresso”.
A partir destas considerações, o presente trabalho procura tecer algumas reflexões sobre o comportamento em campo do futebolista português Cristiano Ronaldo (atleta vinculado ao Real Madrid) e do futebolista brasileiro Neymar (vinculado ao Santos FC). Acusados algumas vezes, por críticos e pelos media, de agirem com falta de ética e de fair play, os dois atletas costumam fazer uso da habilidade técnica como demonstração da virtuose de seus estilos.
Em significativos estudos sociológicos no Brasil sobre o futebol, o drible e a irreverência seriam fatores de valorização estética (como atestam as obras de Gilberto Freyre, Roberto DaMatta e Anatol Rosenlfeld). Essa sublimação foi coroada pelo cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, que em texto publicado em 1970 afirmou que as equipas sul-americanas praticariam um “futebol de poesia”, enquanto as europeias, um “futebol de prosa”. Tais considerações serão colocadas em perspectiva na leitura do jogo praticado por Cristiano Ronaldo e Neymar, em confronto com os aspectos disciplinadores e civilizatórios que seriam promovidos pelo esporte, conforme denunciado pelos sociólogos Norbert Elias e Pierre Bourdieu.
- MARQUES, José Carlos

Prof. Dr. José Carlos Marques
Docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (UNESP - Brasil). É Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP - Brasil) e Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP - Brasil). Licenciou-se em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Ocupa atualmente, pelo segundo mandato consecutivo, o cargo de Diretor Administrativo da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). É autor do livro "O futebol em Nelson Rodrigues" (São Paulo, Educ/Fapesp, 2000) e de diversos artigos em que discute as relações entre comunicação e esporte. É líder do GECEF (Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol - UNESP) e integrante do LUDENS (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e modalidades Lúdicas - USP).
PAP0576 - Urban(c)idade: diálogo entre a Sociologia, a Arquitectura, a Economia e a Geografia - a experiência do Mestrado em Metropolização, Planeamento Estratégico e Sustentabilidade
O presente trabalho pretende contribuir para o diálogo interdisciplinar no que concerne ao estudo e compreensão das Cidades e dos Espaços Urbanos. Longe de constituir um ensaio teorético e desafiador dos paradigmas existentes, procuraremos antes de mais reflectir as experiências pessoais e profissionais dos proponentes da comunicação, discentes e docente do Mestrado em Metropolização, Planeamento Estratégico e Sustentabilidade e cujas formações de base variam entre a Sociologia, a Arquitectura, a Economia e a Geografia.
A relevância desta reflexão surge-nos como uma evidência clara, se a Humanidade “nasceu” na savana africana, foi nas comunidades agrárias do Próximo Oriente que se “fez” “civilizada”. Deste modo, conforme advoga O. Spengler, a história universal é em grande medida a história das cidades.
A Sociologia, leitmotiv do presente congresso, surge como Ciência no século XIX, fortemente alicerçada na necessidade de compreensão dos desafios colocados pela Revolução Industrial emergente, ou seja, da relação biunívoca entre Urbanização e Industrialização.
Contudo, a “marca” do Urbanização na Epistemologia da Sociologia não se limitou a esse acto fundacional da Ciência então emergente. De facto, as décadas de 20 e 30 do século passado viram despontar a designada Escola de Chicago, conjunto de teorias e reflexões que marcaram vivamente a Sociologia e todas as outras áreas do saber que concorrem para os designados Estudos Urbanos. Mais recentemente destacaram-se ainda autores como Manuel Castells (The Rise of the Network Society, 1996) e Saskia Sassen (The Global City, 1991), apenas para referir dois dos mais conhecidos sociólogos urbanos contemporâneos.
Deste modo, demonstrada a relevância da Sociologia na análise das problemáticas subjacentes às Cidades e aos Espaços Urbanos, procuraremos agora salientar o contributo das outras ciências e áreas do saber consideradas no âmbito do presente ensaio.
Neste sentido parece-nos fundamental trazer a visão de F. Chueca Goitia, porque o autor foi capaz de resumir uma série de abordagens distintas entrecruzando várias disciplinas, nomeadamente: a Arquitectura, L. Battista Alberti destacou-se pela forma holística como estudou a cidade, deixando-nos como legado o primeiro tratado moderno de Arquitectura; a Economia, em que H. Pirenne defende uma relação directa entre uma vivência urbana mais activa e o dinamismo do comércio e da indústria; a Geografia, aqui com Vidal de La Blache ao defender a preponderância da Natureza sobre o Homem; entre outras (Chueca Goitia, 1996).
Deste modo, se é inquestionável que as abordagens à Cidade podem ser múltiplas, também é fácil de aceitar que só mediante uma visão sistémica e transdisciplinar se pode compreender com mais detalhe essa amplitude urbana que procuraremos abarcar.
- REIS, Judite Lourenço

- SALVADOR, Regina
- CARDOSO, Sónia Paulo
- MARQUES, Bruno Pereira

Nome: Judite Lourenço Reis
Afliação institucional: Universidade Nova de Lisboa, FCSH, Departamento
de Sociologia (Docente convidada-Conferencista)
Área de Formação: Sóciologa, Mestranda em Metropolização, Planeamento
Estratégico e Sustentabilidade
Interesses de Investigação: Sociologia Urbana, Sociologia da Cultura,
Património e Identidade
Bruno Pereira Marques é Licenciado em Geografia e Planeamento Regional
e Mestre em Gestão do Território pela Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Atualmente
encontra-se a finalizar o Mestrado em Metropolização, Planeamento
Estratégico e Sustentabilidade na FCSH-UNL e na Universidade Atlântica.
É Técnico Superior (Geógrafo) na Câmara Municipal de Palmela, exercendo
funções no Gabinete de Planeamento Estratégico, com destaque para o
processo de revisão do Plano Diretor Municipal.
É ainda Investigador (colaborador, não-integrado) no e-GEO Centro de
Estudos de Geografia e Planeamento Regional da FCSH-UNL.
Os seus interesses de investigação centram-se no âmbito da Geografia
Económica e Social, Geografia Urbana e do Desenvolvimento Regional e
Local.