PAP1435 - Vidas escritas. Portefólios Reflexivos de Aprendizagens como fonte privilegiada de análise da reflexividade individual, em sociologia
A presente comunicação resulta de uma investigação, levada a cabo no âmbito da dissertação de doutoramento em sociologia da autora pelo ISCTE, em que se pretende analisar as aprendizagens não formais e informais realizadas pelos indivíduos ao longo das suas vidas e compreender os contextos que as potenciam ou inibem. Essas aprendizagens "de vida" traduzem-se em competências que podem ser reconhecidas, validadas e certificadas nos Centros Novas Oportunidades, através do recurso a uma metodologia que se centra na construção, por cada candidato, de um Portefólio Reflexivo de Aprendizagens.
O Portefólio Reflexivo de Aprendizagens (PRA) é uma narrativa autobiográfica em que a vida de cada um é contada do ponto de vista da aquisição e mobilização de competências. Ao contrário de um dossier que apenas compila certificados e provas de aprendizagens feitas, o PRA pressupõe e exige que o candidato detenha e desenvolva competências meta-cognitivas e meta-reflexivas sobre o próprio conhecimento que foi adquirindo. A sua construção é, em si mesma, uma experiência promotora de aprendizagens e de aquisição de novas competências.
Nesta comunicação pretende-se reflectir sobre o potencial heurístico dos PRA, encarados como um tipo específico de documento pessoal escrito, um tipo específico de fonte para a Sociologia. A escrita, sobretudo a autobiográfica, é aqui encarada como um poderoso instrumento de reflexividade individual que abre ao investigador social (que toma por objecto os documentos escritos) a possibilidade de acesso aos processos de reflexividade em curso. Através da escrita, pode aceder-se à compreensão do que cada indivíduo pensa sobre si próprio e as suas condições sociais, sobre como mobiliza os seus recursos de forma a fazer face àquilo que se lhe apresenta de uma forma exógena, no seu percurso de vida. A transversalidade destas narrativas autobiográficas e a especificidade de serem escritas torna-as espaços privilegiados de análise da reflexividade individual e da relação entre constrangimentos estruturais e agência humana nas trajectórias de vida.
Estas narrativas em que a história de cada um é contada do ponto de vista da aquisição e mobilização de competências têm, desde logo, um interesse evidente para a sociologia da educação. Mas, ao incluírem, numa mesma história individual várias dimensões da vida social, podem constituir igualmente fontes de informação muito válidas e ricas para outros campos de investigação sociológica.
Alexandra Aníbal (n. 09.05.1967, Lisboa). Licenciada e mestre em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tem trabalhado, desde 2002, na área da Educação e Formação de Adultos, na Câmara Municipal de Lisboa e no Instituto do Emprego e Formação Profissional. Bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia (desde Junho de 2010), frequenta o Programa de Doutoramento em Sociologia no ISCTE-IUL. Interesses de investigação: aprendizagem informal/não-escolar; aprendizagem ao longo da vida; validação de competências adquiridas pela experiência; educação e formação de adultos.