PAP0870 - Pluralidade, mudança e produção de valor na edição de livros: notas sobre a edificação social da cultura impressa
O mundo social do
livro não
corresponde ao mundo
do objecto, mas ao
das práticas e dos
agentes que o
viabilizam enquanto
tal. A afirmação de
semelhante truísmo
torna-se, por vezes,
necessária para que
se não perca de
vista uma das
características
centrais desse
mundo: o de que a
edição é um trabalho
de produção de
valor. O esforço de
materialização de um
livro é também o da
infusão de benefício
simbólico, sem o
qual o objecto
físico se perde
enquanto objecto de
desejo, factor de
aval de conteúdos ou
elemento de alarde
identitário. Em
matéria de livros e
de outros produtos
culturais, o fabrico
do bem palpável pode
estar destituído
simbolicamente, se
desacompanhado da
produção de valor
impalpável do
objecto fabricado. A
realização de um
livro é muito mais
que uma origem
autoral primordial;
é também o resultado
editorial e livreiro
da sua
instituição social
como obra conhecida
e reconhecida pelos
seus receptores
finais. O
conhecimento e
reconhecimento
radicam na convicção
dos seus
usufrutuários finais
no valor intrínseco
da obra. Muito mais
do que elemento
reduzido à
reificação do texto,
o editor produz a
crença no valor que
este adquire como
livro. E esse é, sob
vários aspectos, o
seu poder simbólico
de prescrição: o “de
constituir o dado
pela enunciação, de
fazer ver e fazer
crer, de confirmar
ou de transformar a
visão do mundo e,
deste modo, a acção
sobre o mundo,
portanto o mundo”. O
editor vê-se, então,
investido
objectivamente de um
papel também
veiculado
discursivamente como
ideologia do sector:
o de descobridor, o
de criador do
criador; preenchendo
um lugar central
enquanto peça
charneira no jogo
dinâmico entre a
cultura literária, a
emergência,
desenvolvimento e
declínio de géneros,
temas e autores, as
transformações do
mercado do livro e
as mudanças
tecnológicas que o
próprio objecto
traduz.
Personagem-filtro,
intérprete, mas
também interventor,
prescrevendo,
legitimando e
ordenando o universo
tipográfico, o
editor surge como
figura múltipla e
socialmente
investida de
atributos e práticas
mediadoras na sua
relação com o dado
textual. Produtor de
valor e
materialidade, o
editor inscreve o
projecto do livro
num espaço social
colaborativo de
trabalho, o campo da
edição. A presente
proposta de
comunicação procura
sistematizar
teoricamente alguns
tópicos relativos à
articulação do
editor com a
construção social do
campo editorial e a
edificação da
cultura impressa.
Empreender
semelhante
exploração é abdicar
forçosamente de uma
visão linear,
unidimensional e
historicamente
asséptica do mundo
social e cultural do
livro, cuja
morfologia e
suportes conhecem
crescentemente os
desafios da
desmaterialização.
Nuno Medeiros é investigador no CesNova - Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa e na Númena - Centro de Investigação em Ciências Sociais e Humanas. Sociólogo e mestre em sociologia histórica, encontra-se a terminar a redacção de tese de doutoramento em Sociologia Histórica da Cultura. É professor da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa do Instituto Politécnico de Lisboa. Os seus actuais interesses de investigação centram-se na sociologia e história do livro, da edição, da leitura e da livraria, e na sociologia e história da alimentação. Em 2010 publicou Edição e editores: o mundo do livro em Portugal, 1940-1970 (Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais).