PAP0282 - O intelectual engagé dos movimentos sociais
Considerando tanto as continuidades e descontinuidades sócio-
históricas, políticas e culturais, como também as constantes
metamorfoses na esfera pública, este trabalho pretende uma análise
comparativa entre o impacto multidimensional da crítica dos
intelectuais dos anos 60 e 70 com a primeira década dos anos 2000.
Irá, deste modo, averiguar se subsistem algumas nuances do
engagement dos intelectuais dos movimentos sociais dos anos 60/70
no papel do intelectual hodierno face às crises emergentes de índole
cultural, social, político-económica que - embora motivadas por
públicos, interesses e contextos diferentes - tendem a ter algumas
características e contornos em comum.
Tendo como referência modelos distintos de lutas e movimentos
sociais, este artigo procura estudar a relação e/ou transformação da
relação entre activistas e a comunidade intelectual. No entanto, antes
de deslindar esta ligação torna-se fulcral compreender a figura e
representação do próprio intelectual da modernidade tardia. Ora, e
seguindo a tese de Z. Bauman de 1987, os intelectuais legisladores, e
politicamente comprometidos à la Jean-Paul Sartre, Martin Luther King,
Vaclav Havel, que - através da imaginação democrática, de um vasto
repertório de ideias, avaliações, capacidades e lógicas – divulgavam e
defendiam os valores dos direitos humanos, da paz e da democracia,
esfumam-se aquando o próprio desaparecimento das grandes
metanarrativas (Lyotard, 1979). Agora, defende Bauman, os intelectuais
pós-modernos têm de se cingir ao papel de intérprete, ou seja, “o de
traduzir as diferentes tradições [...]” (Bauman, 1987), de traduzir os
múltiplos imaginários, repertórios, códigos que florescem diariamente
na esfera pública e lutam em paralelo pelo reconhecimento
identitário/cultural no campo político. Não obstante, e considerando o
actual contexto de agitação social, a intervenção social, cívica e política
dos agentes do campo cultural, parece ir para além do papel de
mediador, pois retoma o “efeito desestabilizador”, que tende a
provocar “abalos sísmicos e sacode as pessoas” (Said, [1993] 2000:
157).
Em suma, este trabalho ambiciona perceber 1) se os intelectuais
recuperaram a sua voz, até agora adormecida, na esfera pública; 2) se
têm vindo a contribuir com alternativas sócio-culturais e políticas e até
mesmo 3) se têm vindo a fomentar um fórum de comunicação com o
intuito de instigar alternativas à alternativa imposta pelo sistema.
Pilar Damião de Medeiros é desde 2007 doutorada pela Universidade de Freiburg,
Alemanha. Licenciada pela Brock University, Canada e tirou o mestrado na Queen’s
University, Canada e na Universidade de Karlsruhe, Alemanha. É Prof. Auxiliar
Convidada desde 2009 na Universidade dos Açores. Já publicou um livro intitulado
Rollenästhetik und Rollensoziologie (Wuerzburg, Koenigshausen & Neumann, 2007) –
que obteve 3 recensões críticas internacionaise – publicou igualmente 9 artigos e
capítulos de livro na área da Teoria crítica da cultura moderna, globalização cultural,
sociologia dos intelectuais e cultura política. Tem artigos publicados em revistas
como International Journal of Interdisciplinary Social Sciences, International
Journal of Multidisciplinary Thought, Rhetorical Analysis eJournal, Perspectivas,
Economia e Sociologia, entre outros. É membro efectivo do Núcleo de Investigação
em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade do Minho [Coimbra e
Évora] financiado pela FCT (Referência: FEDER/POCI 2010).