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©Associação Portuguesa de Sociologia – Lisboa, 2012
Associação Portuguesa de Sociologia
PAP1453 - O espaço público da cidade competitva: lazer e mobilidade; inclusão e exclusão
Em 1948, o plano diretor de Lisboa definiu a criação, na região oriental da cidade, de uma zona industrial associada ao porto. Ao longo do século XX, essa região foi também sendo utilizada como abrigo de políticas habitacionais destinadas à população de baixa renda (Gato 1997). Com a desativação e obsolescência de parte das indústrias e a viragem da economia portuguesa para o setor terciário/quaternário (Matias Ferreira e outros, 1997), a região oriental foi se consolidando como uma periferia social. Tais condições justificaram que a zona fosse escolhida para abrigar a Exposição Mundial de 1998, dada como trunfo para tornar Lisboa mais competitiva. A consecução desse objetivo dependia também do sucesso de um projeto de reurbanização que visava constituir ali a "nova centralidade" da capital portuguesa e um de seus principais pontos turísticos. A administração divulga hoje que o perímetro é visitado por 20 milhões de pessoas ao ano ante uma população residente de 25 mil. A gestão do território, batizado de Parque das Nações, é mais distante do poder local e mais próxima do Governo Central, acionista majoritário da empresa criada para realizar a intervenção e fazer a gestão urbana.
Apresentamos aqui os resultados de uma investigação dos espaços públicos do Parque, realizada por meio de observação direta, entrevistas não-estruturadas e análise de documentos. Descrevemos como o urbanismo adotado no Parque combina o favorecimento à circulação – uma característica da modernidade (Foucault, 2007) - com a valorização do lazer - uma característica do urbanismo e do modo de vida urbano atuais (Baptista, 2004). Tal combinação é uma estratégia para ancorar temporariamente o indivíduo nos espaços públicos, permitindo que esses sejam uma ferramenta de competitividade urbana por ajudarem a atrair a massa permanente de população cambiante (Martinotti, 2005) necessária à ocupação do Parque.
Demonstramos então como essa concepção de espaços públicos envolve exclusão de algumas formas de ocupação mas também pela própria inclusão, ainda que condicionada, de outras. Assim, para analisar como se dá a organização das ocupações, é necessário recorrer a uma dinâmica que apreendemos pelo conceito de "processos de inclusão e exclusão". Há uma expressiva negação, pela administração, da exclusão de qualquer indivíduo, o que é condizente com a ideia de que o espaço público deve ser acessível. Uma ideia que condiz com a ficção igualitária da modernidade (Martucelli, 2002).
- PEREIRA, Vitor Sorano

Graduado em comunicação e mestre em Sociologia, é jornalista do diário O Globo (Brasil), e investigador colaborador do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa-UNL/Cesnova (Portugal). Entre 2007 e 2009, foi repórter investigativo de administração local e urbanismo na cidade de São Paulo (Brasil). Com a dissertação “Para o 'cidadão em abstracto': a produção de espaços públicos na cidade reurbanizada”, concluiu o mestrado em Sociologia, linha de especialização Território, Cidade e Ambiente, pela UNL. Apresentou a comunicação “Inclusão e exclusão: a suave e fragmentária organização do espaço de uso público consumível” (Sicyurb/2011). Entre os interesses de pesquisa está a relação entre o lazer e a mobilidade, como competências de indivíduos e características de ações, com a mobilização, a participação cívica e o urbanismo.
PAP1307 - Porque se mobilizam os professores? Juízos plurais sobre o que é “um bom profissional de ensino”. Análises exploratórias
A comunicação visa empreender, no quadro da
Sociologia Pragmática de Thévenot e Boltanski,
uma primeira abordagem ao movimento de
contestação dos professores ao Estatuto da
Carreira Docente (ECD) aprovado em 2007
enquanto questão intimamente ligada à
problemática de juízos morais e políticos
plurais sobre “o que é ser professor num
contexto de incerteza” nas escolas como arenas
públicas.
Tendo como pano de fundo a contestação às
sucessivas reformas na educação implementadas
desde os anos 80, procurar-se-á, à luz do
trabalho teórico desenvolvido pelos autores em
“De la Justification” e “L’action au pluriel”,
apresentar os resultados das primeiras análises
de dados empíricos recolhidos (através de
fontes documentais e entrevistas realizadas
junto de porta-vozes e representantes sindicais
dos professores) de forma a compreender que
“regimes de justificação” foram mobilizados
para justificar as críticas aos princípios de
justiça que presidiram à reforma do ECD e para
a receptibilidade pública da denúncia como
“injustiça” através da referência a “ordens de
grandeza de carácter moral e político”.
Mediante fontes consultadas, identificaram-se
como principais focos de conflito a
estruturação vertical da carreira docente, com
a criação de duas categorias (“Professor” e
“Professor titular”) e a correspondente
diferenciação funcional, aliada a uma avaliação
de desempenho dos professores com efeitos na
progressão na carreira (e limitada por quotas
no acesso aos escalões cimeiros).
Com esta reforma, os seus responsáveis visavam
a instauração de um sistema de avaliação e
progressão mais responsabilizador dos
professores pelos resultados escolares dos seus
alunos (e distinção dos “melhores
profissionais”) e uma hierarquização que
estimulasse uma maior exigência nas práticas
pedagógicas.
No entender dos professores, o novo ECD
acarreta a introdução de mecanismos de
“controlo” que corroem a autonomia e
reflexividade que devem pautar a actividade
docente e coloca em causa o papel integrador
das escolas que só pode ser cumprido por uma
concepção do trabalho pedagógico como um
esforço colectivo dos docentes de cada
estabelecimento de ensino – posto em causa por
uma avaliação limitadora da progressão na
carreira.
À luz do corpo teórico mobilizado, a primeira
hipótese a explorar é a de que o novo estatuto
assenta numa representação do professor
orientada pela lógica da “cité industrial” –
concepção da “eficácia” e “direcção” aplicada à
acção docente – e pela lógica da “cité
mercantil” – a “concorrência” e “competição”
mediante um sistema de desempenho limitador da
progressão. Em segundo, procura-se demonstrar
que as críticas dos professores ao ECD são
orientadas pela lógica da “cité inspirada” – a
autonomia e inovação na acção pedagógica – e a
lógica da “cité cívica” – a solidariedade
cívica entre os professores em prol da
igualdade de oportunidade entre os alunos e o
combate à exclusão escolar.
- RESENDE, José Manuel
- GOUVEIA, Luís

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Doutorando na mesma instituição desde 2011. Bolseiro de Investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia com o projecto intitulado "Porque se mobilizam os professores? Representações colectivas e coordenações de acções públicas dos professores do Ensino Básico e Secundário em função de juízos plurais sobre o que é um bom profissional de ensino".