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©Associação Portuguesa de Sociologia – Lisboa, 2012
Associação Portuguesa de Sociologia
PAP1226 - Na Cozinha De Famílias Rurais: Práticas De Escolarização De Mães Com Filhos Em Idade Escolar
A comunicação proposta se insere em uma pesquisa mais abrangente denominada As práticas de escolarização de famílias rurais com filhos em idade escolar: o caso do povoado de Goiabeiras, São João del-Rei, Minas Gerais, Brasil (PORTES e outros, 2010), que vem sendo desenvolvida nos últimos cinco anos. Ela procura responder uma pergunta básica: como é o cotidiano de mães que vivem no meio rural na lida com seus filhos naquilo que diz respeito às questões escolares?
Assim, tomamos os relatos construídos em vivências diárias junto a 15 famílias, acompanhadas de segunda a domingo, de 11 da manhã às 18 horas da noite. Anotamos os acontecimentos diários dessas famílias, mas especialmente aqueles voltados para as ações da criança e daquilo que diz respeito às práticas escolares. Este acompanhamento durou dois meses e meio. Trata-se de um estudo etnográfico e baseamo-nos nos diários construídos durante o acompanhamento.
Queríamos construir um painel complexo de uma realidade já definida, utilizando de diferentes técnicas e métodos de pesquisa, para que pudéssemos cruzar discursos e práticas de famílias e professores. Inspiramo-nos basicamente nos trabalhos de Bernard Lahire, notadamente nas questões configuracionais; nos trabalhos de Daniel Thin, principalmente aqueles relacionados às diferentes lógicas socializadoras da escola e da família; na etnografia efetuada por Pedro Silva sobre um conjunto de escolas portuguesas de diferentes posições sociais e nos trabalhos de Anettle Lareau.
Para além dos aportes teóricos já indicados, concentramos nossas leituras em textos etnográficos de Fonseca, Mauss, Geertz, Velho, Ezpeletta e Rockwell, Van Zanten, Martins, Elias e Scotson. Precisávamos estar providos de uma compreensão simbólica do sentido da nossa inserção nessas famílias e dos efeitos da nossa presença em uma cena complexa, privada, que se abria generosamente à nossa curiosidade investigativa.
Para interpretar esse conjunto de dados, apoiamo-nos em um conceito que vem sendo trabalhado por Portes (2001), denominado circunstâncias atuantes. As primeiras análises indicam um aprofundamento dos estudos no que se refere: ao conceito de famílias rurais, ao significado de tempo e de espaço no meio rural, ao lugar ocupado pela criança nas famílias e no povoado, ao lugar da mãe nas famílias, as manifestações simbólicas das famílias, a ordenação da casa, ao lugar da escola na casa e as práticas específicas de escolarização no meio rural. Os dados mostram que se essas famílias são semelhantes materialmente falando, as inserções simbólicas diferenciam sobremaneira as suas práticas de escolarização.
- PORTES, Écio

- SILVA, Pedro
- CAMPOS, Alexandra
- SANTOS, Valéria
Écio Antônio Portes, professor adjunto da Universidade Federal de São João del-Rei, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais, pesquisa no campo da Sociologia da Educação, com ênfase nas trajetórias escolares de estudantes pobres e nas práticas de escolarização da famílias rurais. É ainda, professor do Programa de Pós-Graduação Processos Sócioeducativos e Práticas Escolares da UFSJ.
PAP0270 - Tese e ANTítese: a autoetnografia como proposta metodológica
Todos os textos
sociológicos
procuram interpretar
e dar sentido às
relações sociais,
integrando-as num
determinado modelo
explicativo ou tese.
Estas teses são
geralmente
atribuídas a um ou
vários autores e
inseridas numa
corrente ou escola,
dando origem a uma
teoria social. As
teorias e os modelos
interpretativos
tendem a tornar-se
impessoais e
deslocalizados, à
medida que vão sendo
exportados e
reutilizados por
outros autores,
acabando por se
tornarem normativos
e, de certa forma,
herméticos. Dado que
todas estas teorias
são construídas a
partir de um certo
contexto
sócio-histórico,
torna-se muito
difícil escapar ao
etnocentrismo
interpretativo, até
porque o sociólogo
está sempre situado
e o seu
posicionamento é
irremediavelmente
restritivo. O que
pretendo aqui
explorar é a
possibilidade de
libertar as análises
sociológicas do
etnocentrismo a
partir do
autocentrismo. A
autoetnografia é um
mecanismo
metodológico que
permite dar
visibilidade aos
variados aspetos e
agentes (antítese)
que ficam fora das
teses e que são
obscurecidos, mesmo
tendo sido decisivos
para a elaboração
das mesmas.
Associada à ANT
(Teoria Ator-Rede ou
Actor-Network
Theory), a
autoetnografia
procurará focar-se
nas redes de
interações que levam
o etnógrafo a
escolher as suas
metodologias,
modelos analíticos e
propostas teóricas.
Procurando colocar
todas os agentes num
plano bidimensional
não hierarquizado
previamente (Bruno
Latour) e seguindo
os princípios do
agnosticismo,
simetria e
associação livre
(Michel Callon), a
autoetnografia
servirá para
identificar tantos
os atores humanos
como não-humanos que
se relacionam e se
suportam mutuamente
na elaboração de
teses sociológicas.
Esta metodologia de
análise permitirá
ainda localizar a
produção de
conhecimento, dando
visibilidade ao
contexto específico
da sua construção,
tanto do ponto de
vista material como
imaterial. Centrada
mais no processo de
produção do que no
resultado final dos
estudos
sociológicos, a
autoetnografia
pretende também
resgatar as emoções
e as ideias prévias
dos autores sobre o
seu objeto de
análise, dando
ênfase às
transformações
conceptuais,
emocionais e
performativas que
ocorrem durante a
construção da sua
tese.
- ARRUDA, José Pedro

Nota biográfica: José Pedro Arruda nasceu a 30 de Junho de 1982, em Riba de Ave, Vila Nova de Famalicão. Em 2006 concluiu a Licenciatura em Antropologia pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Em 2009, ingressou no Mestrado em Sociologia da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, que concluiu em 2011. Atualmente, frequenta o programa de Doutoramento em Sociologia da mesma Universidade, onde desenvolve um projeto de investigação sobre televisão, os mecanismos que a produzem e os seus impactos sociais na vida de todos os dias.