PAP0845 - Reconfigurações da masculinidade hegemónica nos corpos envelhecidos: um estudo em idosos praticantes de exercício físico.
O tema das masculinidades, tal como o das feminilidades, não decorre de uma dádiva ontológica, mas passa a existir a partir dos atos das pessoas, e, para além de ter que ser entendido como um processo social, envolve práticas que se referem ao corpo e ao que o corpo faz (Connell, 2000). Na realidade, é um tema que exige uma pluralidade de posicionamentos e não se deve confundir com homens ou com a condição de ser do sexo masculino (Amâncio, 2004), e pode ser definido como uma configuração organizada de prática relativa à estrutura das relações de género (Connell e Messerschmidt, 2005). A masculinidade hegemónica é construída nos lugares onde a expectativa dos homens é ser independente, forte, assertivo, emocionalmente restritivo, competitivo, resistente, agressivo e fisicamente competente (Smith, et al, 2007).
O estudo das masculinidades ganha importância quando estudamos o envelhecimento, uma vez que o declínio das capacidades físicas e motoras dos idosos poderá ser problemática (Calasanti e Slevin, 2001), uma vez que as características da masculinidade dominante que predominam na juventude e se estendem na vida adulta decrescem à medida que se envelhece (Bronfman, 2006). Esta preocupação orienta os homens idosos para actividades saudáveis, nomeadamente para a realização de exercícios físicos regulares.
A presente investigação objectivou conhecer as percepções de idosos acerca do corpo, procurando explorar as suas expectativas relativamente à prática de exercício físico. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas a 22 idosos (68.6±5.4 anos) que iniciaram um programa de exercício físico. Os dados foram posteriormente sujeitos a análise de conteúdo no programa QSRNVivo7. Os resultados apontam que: (i) o envelhecimento aliado à diminuição da funcionalidade, de incapacidade e ao aparecimento de problemas de saúde, parece afastar comportamentos afirmativos da masculinidade; (ii) os idosos tendem a percepcionar o corpo com harmonia, mas a centrar as suas preocupações na funcionalidade; (iii) a disfunção eréctil surge com consequências negativas afastando os comportamentos afirmativos da masculinidade pela sexualidade. Nesse sentido, este estudo sugere que as conjunturas mudam ao longo da vida, sendo que aquando da velhice, ou quando esta se aproxima, as normas ditadas pela masculinidade hegemónica, embora presentes são reafirmadas. A prática de exercício físico parece ser, nesta etapa da vida, um meio determinante para (re)configurar e afirmar a masculinidade do homem idoso.
Estudo no âmbito do Projecto financiado pela FCT (PTDC/DES/102094/2008 (FCOMP-01-0124-FEDER-009587).
Paula Silva nasceu no Porto, Portugal, e é doutorada em Ciências do Desporto pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto onde exerce funções de docência e de investigação no CIAFEL. Desenvolve estudos e projetos de investigação no domínio dos Estudos de Género e Desporto. É autora de vários livros e artigos nacionais e internacionais. Foi distinguida com o Prémio Investigação “Carolina Michaelis de Vasconcelos”, (ex-aequo) em 2007. Vice-presidente da Associação Portuguesa Mulheres e Desporto.
Carina Novais, mestre em sociologia pela Faculdade de Letras desenvolve o seu percurso profissional em investigação científica tendo desenvolvido trabalhos diversos resultantes da pesquisa sobre o género e o desporto na área da infância e adolescência e também no âmbito do envelhecimento ativo participando nos projetos "Iniquidades sociais, ambientais e de género na prática de actividade física e desportiva de adolescentes" e atualmente no projecto "Actividade física objectivamente avaliada e obesidade em adolescentes: Estudo dos determinantes pessoais, sociais e ambientais" no Centro de Investigação em Atividade Física e Lazer da Faculdade do Desporto da Universidade do Porto. Tem também contributos enquanto investigadora na organização "Movimento Democrático de Mulheres" participando num projeto "Uma vida de Trabalhos? Trajetórias Profissionais de Mulheres e Participação cívica" onde desenvolveu o seu projeto de mestrado em torno da temática,"género, família e trabalho" e com a publicação "Percursos de Mulheres: Trabalho e Participação Política de Mulheres na área Metropolitana do Porto".
Joana Carvalho, Professora do Instituto Superior de Tecnologias Avançadas. Doutoranda em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais da Universidade de Aveiro e Faculdade de Letras da Universidade do Porto e licenciada em Engenharia Multimédia no ISTEC. Desenvolve atualmente trabalho de investigação em Social Media, Comunicação e Cibermuseologia, dedicando-se a construção da Tese de doutoramento com o título “A adopção de social media por museus como uma ferramenta de comunicação”.